Querida São Paulo,

Terminei agora mesmo (no momento em que te começo a escrever) de ler um livro que me levou a alma. Abro o email e leio-te, sem reconhecer o remetente, e eis que ela se inunda novamente, quando vejo que és tu.

O livro fala da perda, de casas, que mesmo cheias, se tornam vazias. Tal como nós. Quando pousei o livro pensei que não saberia o que escrever sobre ele, e agora, ao escrever-te a ti, em toda a minha cabeça se atropelam pensamentos, ideias, significados e significâncias.

Nos tempos em que vivíamos antes deste confinamento, ao longo de tamanha evolução tecnológica e tão pouca evolução emocional, habituamo-nos a menosprezar coisas simples: deixámos que a nossa vida se transformasse no caos que se desenvolvia no seu entorno: o trânsito, os filhos na escola, o mau-humor de um patrão num emprego frustrante e frustrado. Ruído, demasiado ruído, para almas tão desgovernadas, tão perdidas no meio de listas de afazeres, dos quais não se podem esconder, sob o risco de que a balança em que julgam viver, se desequilibre. Mas esquecem-se de que essa balança já não se lembra da última vez que se equilibrou. Talvez tenha sido antes que o dinheiro se apoderasse das nossas vidas….
Mas, no momento em que nos forçam a fazer algo que deveríamos fazer regularmente e por iniciativa própria, estar connosco, as máscaras caem (o que não deixa de ser irónico, visto que agora elas são tão essenciais na nossa indumentária, quanto sapatos impermeáveis para os pés em tempos de chuva).

Querida São Paulo, eu não precisei que tirasses a máscara para sentir que te revelavas. Mal me lembro da cor dos teus olhos, do teu cabelo, da armação dos teus óculos, para me lembrar da tua essência que ainda permanece em mim, alguns dias depois, tantos quilómetros depois.

Fomos duas estranhas que se permitiram, no silêncio, no escuro… Duas estranhas cujo intuito que as juntou era uma reunião que deveria rondar o sexo. Mas sinto que o que nos aconteceu, o que nos abalou, foi uma intimidade ainda maior. Não dançaste para mim, mostraste-me como dançavas para os outros, enquanto eu só desejava que permanecesses sentada, em silêncio, a olhar para mim, enquanto eu olhava para ti.

Dois países diferentes, dois continentes diferentes e a mesma língua, palavras das quais não precisaríamos, para que radiações UV, mais fortes do que as que de um Sol que nos queima sem camada de ozono, nos incendiasse por dentro.

E tudo isto através de um computador. Em mim, ardeu um desejo, como quem se sacrifica por um Deus, sem que configurações do corpo humano me alienassem, me vexassem, me amedrontassem.
Incapacitaste-me de reacção enquanto me inundava de um prazer que é imperceptível à pele, à epiderme, à derme e à hipoderme, quando foste obrigada a desaparecer, para te entregares a um novo olhar. Lágrimas que não sentia, invadiram-me os olhos, porque só me apetecia abraçar-te, não por pena ou compaixão, mas por um sentimento que o corpo não conseguirá nunca decifrar: talvez por isso as lágrimas não caiam, porque o que estava desarmado, eram duas essências que, no meio do caos de um mundo em desordem, conseguiram, sem fisicalidade, sem obrigação, apenas por uma necessidade vital, silenciar-se, uma perante a outra.

Devo confessar-te uma coisa: gravei a nossa chamada (tal como gravei todas as que fiz durante o dia…), mas também te confesso, querida São Paulo, que ainda a não consegui rever… Algo no corpo me impele para esse movimento voyeurista, mas aquele corpo dentro do corpo, que não é corpo, mas chamemos-lhe corpo porque o mundo invoca definições, não me permite regressar àquele momento.

Desde Sábado que não paro de pensar em ti. De cada vez que fecho os olhos vejo-te por inteiro, sem precisares de te levantar ou tirar a máscara. E não a tires ainda… Não a tires, porque enquanto a tiveres posta, consigo ver-te plena, sem que tudo o que é acessório me inebrie.
Desde Sábado que te desejo escrever-te odes, poemas, sonetos e até tragédias em honra ao amor e à saudade que, não se conhecendo, se imagina completamente palpável dentro de nós.

Querida São Paulo,
Quero que dances, minha Deusa, que dances para o Mundo, ao som das minhas palavras, ao ritmo da minha pulsação, que agora partilho contigo.

As casas só se aquietam quando nos esquecemos delas, quando sentimos que as paredes e as trancas das portas não nos protegem, de uma outra forma nos prendem.
Quero ouvir-te e ver-te da forma como mais te aprouver mostrares-te-me, porque quero absorver de ti o que de mais puro tiveres para me dar.

Da tua,
Alcobaça

Categorias: Reflexões

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