Sentamo-nos e começamos a escutar em surdina a conversa entre a Patrícia e a Leonor; a conversa começa a tornar-se mais nítida e apercebemo-nos que uma delas está com um dilema amoroso. Aparecem e partilham o drama connosco: Leonor está apaixonada pelo Páris que não lhe responde às mensagens de amor enquanto isso tem o João apaixonado por ela que lhe dá todas as provas de amor possíveis e impossíveis. A Leonor representa o emotivo, o coração, a leitura de sinais em qualquer ação por mais inconsequente que seja; a Patrícia é a razão em pessoa, o pragmatismo.

Olhando para o público – uma sala repleta de alunos de escolas dos bairros de Lisboa a palavra é lançada para eles. E como tudo o que normalmente envolve crianças as respostas fazem soltar sorrisos, gargalhadas e abrir o coração: não é isso o que mais aprendemos com as crianças?

Enquanto a conversa decorre enquanto vemos os quadros que fazem parte da cenografia – parecem imoveis mas são sujeitos a pequenas mudanças, pequenas alterações que são praticamente impercetíveis. Num deles vemos a combinação entre o trabalho de Frida Kahlo “As Duas Fridas” e uma pintura da Escola de Fontainebleau – O presumível retrato de Gabrielle d’Estrées e da sua irmã, a Duquesa de Villars; na outra temos “A origem da Via Láctea” de Tintoretto.

Mas não aprendemos apenas sobre pintura com esta peça – aprendemos sobre poesia – sobre Florbela Espanca, Cesariny, Fernando Pessoa, Camilo Castelo Branco, Cyrano de Bergerac. E aprendemos sobre amor na sua forma mais inocente: As crianças, que são mesmo o melhor do mundo, estão livres de filtros, de mágoas e conseguem na sua sinceridade fazer-nos acreditar no amor puro. Sugerem as alternativas mais bonitas à Leonor: Gostar de quem gosta dela, olhar para a beleza de dentro (De que serve a lindeza se não for inteligente? – Pergunta o Santiago sentado à minha frente). No fim, somos surpreendidos pela queda do muro do pragmatismo – porque o amor desarma, porque o amor transforma – porque o amor é, ao fim ao cabo, imprevisível.

Saio a sorrir e a lembrar-me do poema de Fernando Pessoa que esta peça me traz à lembrança:

“Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.”

Por Amor!
De: Patrícia Portela
Com a cumplicidade e cocriação: Leonor Barata
Participação especial sonora: Sónia Baptista e Thiago Arrais
Efeitos especiais, programação e murais de vídeo: Irmã Lúcia
Filmagens para animação ao vivo: Leonardo Simões
Filmagens: Rui Ribeiro
Ilustradora CD áudio: Bárbara Assis Pacheco
Direcção de Produção: Helena Serra
Produção Associação: Cultural Prado
Parceria: BOCA (Áudio CD)
Coprodução: Teatro Municipal do Porto, Teatro Viriato, São Luiz Teatro Municipal

Foto: José Caldeira

Categorias: Teatro

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