“On The Road, the original scroll” tinha tudo para ser uma leitura maravilhosa e é por isso mesmo que ainda hoje não entendo porque não o foi. Tem todos os elementos que me fascinam: é auto-biográfico, não obedece a regras formais da literatura, parece escrito de um fôlego, numa corrida atrás das memórias para que elas não se diluam no irreal, sentimentos à flor da pele, personagens transtornadas, à procura delas mesmas, sem finais, muito menos felizes. O cenário idílico para me perder numa leitura que deveria ter sido arrebatadora, mas que ainda hoje não consigo descortinar o que foi para mim.

Jack Kerouac nasceu em Massachusetts em 1922, filho de pais Franco-Canadianos e é um escritor e poeta reconhecido no norte da América por ter impulsionado a Geração Beat. Chama-se Geração Beat ao movimento literário que surge nos Estados Unidos da América no pós Segunda Guerra Mundial, no qual os escritores desejam romper com as normas literárias e expressar a sua liberdade através dos seus textos, escrevendo na primeira pessoa, contando histórias verídicas e vivendo ao ritmo de sexo, drogas e, neste caso jazz.

“On The Road” representa exactamente o tipo de escrita dessa geração. Kerouac, o narrador, conta-nos, aparentemente sem ocultar detalhes, as suas viagens pelos Estados Unidos da América e até mesmo ao México. São muitas cidades, Denver, Chicago, Los Angeles, Nova Iorque e tantas outras cidades que não conhecemos (ou pelo menos eu não conhecia) nos estados do Minnesota e do Texas, por exemplo. repletas de aventuras, de pessoas como ele, escritores, pensadores, muita droga, álcool, sexo, hetero e homossexual (sem linguaguem expícita) e tudo isto com trocos contados no bolso. Viagens em carros roubados, autocarros pagos com dinheiro enviado pela sua mãe, emprestado por amigos ou que ganham em trabalhos temporários nas cidades em que permanecem uns dias, e muita boleia de estranhos que nos valem algumas histórias bizarras.

Com o nada que têm são jovens livres, e essa liberdade é, não só a sua maior maior ambição, mas também o seu motor criativo. “Tudo me pertence, porque sou pobre.” Kerouac escreveu o manuscrito em 3 semanas num rolo de papel, sem preocupação de pontuação sequer, para que não tivesse de parar, uma escrita típica do chamado “fluxo de consciência”* – uma técnica de escrita que transcreve o complexo processo de pensamento, por vezes ilógico, desencadeado, com auto-comentários e que pode levar a alterações de sintaxe, pontuação, narrador, entre outras formalidades da narrativa. Apesar do sucesso que a obra teve, ela foi rejeitada por várias editoras, sendo que, quando foi finalmente aceite pela Viking Express, foi sujeita a imensos cortes. Só mais tarde foi publicada a versão original. A edição que li “On The Road, The Original Scroll”, publicada em 1950 pela Viking em 2007, traz inúmeras anotações e comentários, no entanto, eu não os li, devo confessar. Quando encontro versões com introduções escolho sempre ler no fim, de forma a não influenciarem a minha leitura, neste caso em específico, no final, e porque tive esta relação tão estranha com o livro, não senti vontade que mo explicassem ao pormenor. Então, o que decidi fazer foi deixar ficar em mim a mística do que li e procurar outras obras do autor que me possam abrir caminho para um melhor entendimento da sua escrita.

Ao confrontar-me com esta obra e com outras para onde ela me leva, coloco em causa muito do pensamento que tenho lido sobre auto-ficção, que apresenta como seu precursor Serge Doubrovsky (francês) com o seu romance “Fils”, em 1977, que escreveu a partir da premissa de usar o seu próprio nome e, a partir daí uma série de escritores começam a segui-lo, mais do que interessados numa auto-biografia, à procura de uma verdade na narrativa.* Mas, Kerouac e a Beat Generation mostram-nos que há já um grande movimento nos Estados Unidos da América, quase 30 anos antes, a explorar essa verdade, com nomes e situações reais, tal qual como Doubrovsky a cunhou em 77 e a foi actualizando nos anos seguintes. Será, com certeza, tema para explorar nos próximos tempos.

Outras obras do autor:

  • Os Subterrâneos
  • E os Hipopótamos Cozeram nos Seus Tanques (com William S Burroughs)
  • Big Sur

Esta obra, bem como “Big Sur” e “Os Subterrâneos” estão traduzidas em português, editadas pela Relógio d’Água.

“E os Hipopótamos Cozeram nos Seus Tanques” foi editada em Portugal pela Quetzal

Categorias: Livros

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