A elegia é uma manifestação poética que tem origem no grego clássico, e é definido como um canto de tom lamentoso, melancólico triste e complacente em que o poeta geralmente manifesta uma ideia em forma de lamento. Essa lamentação pode estar associada a desgostos de amor, à morte, à passagem do tempo, enfim, às perdas irrecuperáveis e insubstituíveis. Sandra Faleiro descobriu este sentimento elegíaco no último texto dramático escrito por Anton Tchékhov, O Cerejal, e transformou a peça num espectáculo festivo que torna efectivo o celebrar da perda, do esquecimento, da memória e do fim das coisas.

Manifestando uma leitura metateatral da obra, a encenadora utiliza o próprio espaço teatral (entenda-se, plateias, bancadas, portas e corredores do Teatro São Luiz) para dar a ver ao público a mansão d’O Cerejal. Neste espectáculo, o protagonista é a memória e o espaço que esta ocupa, e é por via da memória que se desvenda em cena um discurso meta. Cucha Carvalheiro, ou Firss, o guardião do Cerejal, personifica a questão do tempo e das experiências partilhadas entre as paredes do Teatro e as linhas d’O Cerejal. Actores e espectadores, sentados no palco, ouvem a introdução da actriz que partilha as suas vivências pessoais como artista naquela casa, e inicia a intriga tchekhoviana a partir da leitura da peça.

Aquele que parece um dispositivo simples e funcional, sem outro artifício para além da interpretação dos actores sentados em cadeiras, ganha a sua verdadeira dimensão quando as cortinas do palco se elevam e deixam a descoberto o pátio das memórias – dos actores e do público. Desvenda-se, à frente, a plateia. Para quem assististe, está-se perante o abismo do lugar vazio no teatro, que se traduz no lugar vazio para onde caminha a mansão do cerejal neste espectáculo. As fileiras de cadeiras desocupadas tornam-se no espaço de cena, e é ali, na plateia, que as personagens celebram o fim derradeiro da sua casa de infância. Vestidas de branco, todas as personagens amortalham as suas histórias de amor e as suas recordações, transformam em espectros os corpos vivos e quase tornam reais os lendários fantasmas do Teatro São Luiz (consta que ali habitam alguns).

A música, da autoria de Sérgio Delgado, e a luz, de Rui Monteiro, apresentam os estados de alma das personagens – ora por confirmação ora por contradição. A comunicação paradoxal da música e da iluminação traduzem a imaterialidade das dimensões da memória e determinam as cenas mais fortes deste exercício cénico, levando as interpretações a exorcizar os desgostos, perdas e tristezas destas personagens. O ambiente é de festa, mas o mote é trágico: está iminente a venda do cerejal e o diluir de todas as relações laborais, emocionais e amorosas que representam a vida e a existência daquela propriedade.

É primoroso o cuidado, esclarecimento e protagonismo que este espectáculo concede às narrativas satélite da peça de Tchékhov, tronando o amor entre Iacha e Duniacha, a paixoneta de Trofímov por Ánia ou a loucura da perceptora Charlotta Ivánovna tão necessários como a inconsequência de Andréevna, a ingenuidade de Leonid Andréevitch Gáev ou a obstinação de Lopákhin. A diversidade do elenco, e a sua qualidade interpretativa convocam, sem desequilíbrios e com um vigor constante, um trabalho coral eficaz e belo de se ver. Um carnaval fúnebre celebra-se em torno desta peça, que enriquece o texto e o desvenda, por via da perícia da encenação, direcção de actores e uma leitura muito preciosa da obra.

Este espectáculo, que estreou em Janeiro 2021 e apresentou poucas récitas antes do confinamento geral (quando viu interrompida a sua carreira de apresentações) vive do pulsar de uma inquietação e incertezas dos tempos que se vivem. Se o seu calcanhar de Aquiles se prende com uma dramaturgia que aflora os sentimentos gerais da certeza do fim das coisas e da incerteza do futuro, sem se aproximar referencialmente a nenhum assunto em particular, este é também o seu aspecto mais virtuoso: conseguir concretizar a universalidade temática que reside nesta obra sem afunilar ou generalizar demasiado o que aí encontra em debate.

Em O Cerejal descobre-se sempre novidade para além da sua matéria teatral. Contudo, de que forma se pode encenar, sem ser demasiado lato, a especificidade dos nossos dias? Qual a pertinência e o interesse em encenar este texto para além do interesse de reportório? E, no entanto, terá de facto de haver uma dramaturgia que o justifique para além do seu interesse teatral? Já não nos basta o que é “simplesmente” teatro, as dinâmicas que lhe são próprias, do seu universo particular, sem essa ansiedade de comunicar com o é exterior a si, para além de contar histórias ao seu público? Parafraseando Georges Banu em “O Cerejal e o desafio da encenação”, de que modo a nossa época se espelha em O Cerejal – é o desafio a enfrentar quando se recusa a simples constatação relativa à sociedade russa em 1900 e quando se evita os desvarios duma actualização demasiado explícita.

Entre Gricha, a criança morta, e Firss, o criado esquecido, este é um espectáculo que ensaia e reflete sobre a melhor maneira de acabar um discurso, um tempo e um teatro que se tem como testamentário. E para isto louva-se, honra-se e celebra-se o seu fim, na perspectiva do surgimento de um novo ciclo e novos começos.

25 de Julho de 2021, Sala Luis Miguel Cintra, Teatro Municipal São Luiz

Encenação e Concepção Plástica: Sandra Faleiro. Assistência de Encenação: Alice Medeiros. Interpretação: Ana Valentim, Cristina Carvalhal, Cucha Carvalheiro, Inês Castro Dias, Joana Campelo, José Leite, Nuno Nunes, Paulo Pinto, Pedro Lacerda, Vítor d’Andrade e Sandra Faleiro. Desenho de Luz: Rui Monteiro. Sonoplastia: Sérgio Delgado. Produção Executiva: Sofia Bernardo. Co-Produção: Causas Comuns e São Luiz Teatro Municipal// A Causas Comuns é uma estrutura financiada pelo Governo de Portugal – Ministério da Cultura/ Direcção-Geral das Artes// O Teatro São Luíz/EGEAC é o parceiro no Projecto Europeu Inclusive Theater(s).

(Este texto está também publicado em www.ocalcanhardeaquiles.wordpress.com)

Categorias: Teatro

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