Costuma dizer-se que uma das principais funções dos livros é permitir-nos fazer as viagens e viver as vidas que não conseguimos. Essa é também a função primordial de todos os atos culturais.

Ir a um teatro é sempre viajar, sair do lugar e percorrer as palavras e os estados de alma que nos são transmitidos. O Ricardo Neves-Neves, sobejamente conhecido autor e encenador, cativou-me ontem e tornou-se um dos meus condutores de eleição para uma viagem aos sonhos acordados de uma infância adulta.

A questão de Olivença e a sua pertinência é aqui redesenhada com recurso à sátira com umas muito bem aplicadas golfadas de nonsense: A afirmação do Reino de Portugal como o 5º e definitivo império está dependente da conjugação das estrelas mais incompatíveis: as Bolas de Berlim do Califa, as sobrancelhas do Tovarich Cunhal, as orgias da rainha mãe em Macau, o Bubu, o Street Fighter, a Mary Poppins e até a Nossa Senhora de Guadalupe (acompanhada pela Nossa Senhora de Fátima e pela Nossa Senhora de Lourdes). E a verdade é que mergulhamos num vórtice de onde não conseguimos libertar-nos.

Para isso contribuiu também a composição e orquestração de Filipe Raposo – a música leva-nos pela mão, faz-nos cavalgar nos cavalos com rodas que invadiram esta cidade dando-nos sempre um complemento ao texto: chega a parecer que as palavras ditas são cantadas e que as músicas instrumentais são, elas próprias, composições de palavras que nos atingem.

Não sei há quanto tempo não sentia que uma peça de teatro tinha passado a voar mas a boa disposição que inundou os espetadores era notória nas gargalhadas que trocámos com desconhecidos à saída do SLTM.

Dizia a Princesa Beatriz qualquer coisa como: “Oh Mãezinha, já corremos tantos riscos, é só mais um risco!”

Digo eu para o Filipe e para o Ricardo – continuem a arriscar! Continuem a levar-nos por este caminho de imaginação que é um caminho feliz para a Liberdade.

A Reconquista de Olivenza, de Ricardo Neves-Neves e Filipe Raposo
6-16 fevereiro 2020
São Luiz Teatro Municipal

Texto e Encenação Ricardo Neves-Neves Composição e orquestração Filipe Raposo Interpretação Ana Valentim, Bruno Huca, David Mesquita, David Pereira Bastos, Diana Vaz, Joana Campelo, Márcia Cardoso, Rafael Gomes, Rita Cruz, Ruben Madureira, Sandra Faleiro, Samuel Alves, Sílvia Figueiredo, Sílvia Filipe, Sissi Martins, Susana Madeira, Tadeu Faustino, Tânia Alves, Teresa Coutinho, Teresa Faria, Tiago da Cruz, Vítor Oliveira e Filomena Cautela (em vídeo) Músicos Nelson Nogueira (I violino), Malu Santos (II violino), Eurico Cardoso (viola), Sara Abreu (violoncelo), Romeu Santos (contrabaixo), Tânia Mendes (percussão I), Cristiano Rios (percussão II), Natália Grossmanová (flauta), Pedro Capelão (oboé), Marta Xavier (clarinete), Gonçalo Pereira (fagote), Ricardo Alves (trompa I), Luís Mota (trompa II), Óscar Carmo (trompete), Hélder Rodrigues (trombone), Jenny Silvestre (cravo) Maestro Cesário Costa Direção vocal João Henriques Coordenadora de orquestra Paula Meneses Adaptação e Locução da narração Eduardo Rêgo Sonoplastia Sérgio Delgado Desenho de luz José Álvaro Correia Direção técnica TdE CR Creative Projects Cenografia Catarina Barros Assistente de cenografia e construção de adereços Cristóvão Neto Assistente de cenografia Susana Paixão Construção de cenografia Móveis Maia, Sign-wide Format Print e Thomas Kharel Costureiras de cenografia Ana Maria Fernandes, Maria Costa Figurinista Rafaela Mapril Confeção Carla Geraldes, Helena Jardim, Lígia Garrido, Maria Afonso, Mónica Fortes, Shabbir Hussain, Esboços Ilimitados Lda, Ana Sabino Atelier: Celeste Sacramento, Sandra de Arez, Anabela Oliveira Assistente de figurinos Patrícia Andrade Caraterização e cabelos Cidália Espadinha Assistente de caracterização e adereços Beatriz Pessoa Assistentes de caracterização Bruno Saavedra, Sónia Lisboa, Dennis Correia Assistente de figurinos Patrícia Andrade Coreografia de combates Tiago da Cruz Vídeo / Animação/ Ilustração TEMPER creative agency Teaser promocional Eduardo Breda Art Designer José Pinheiro @o_pinheirojose Apoio à dramaturgia e Assistência de encenação Rafael Gomes Assistência de Encenação Diana Vaz e Ana Valentim Assistência de produção e de encenação Tadeu Faustino Produção e Comunicação TdE Mafalda Simões Produção Culturproject Nuno Pratas Coprodução Cine-Teatro Louletano, Teatro do Eléctrico, Culturproject e São Luiz Teatro Municipal

Categorias: Teatro

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A Reconquista de Olivenza, de Ricardo Neves-Neves e Filipe Raposo

  1. SONETO: SOU A OLIVENÇA QUE PROTESTA///

    Eu sou aquel’ Olivença que chora/
    por ‘star sem razão nas bocas do mundo;/
    sou também a Olivença qu’ implora/
    ser vista p’lo que sente lá no fundo!//

    Olivença fui nos tempos d’ outrora,/
    e como tal vivi cada segundo;/
    se mudei p’ra ser o que sou agora,/
    fui por motivos qu’ aqui não difundo!//

    Estudem-me sem reservas como quero,/
    p’ra poder talvez algum di’ entender/
    se sobre mim se pode ser sincero…//

    Olivença sou, mais não posso dizer,/
    mas de todos e com fervor ‘spero/
    que m’ ajudem p’ra mais sobre mim saber!///

    ESTREMOZ, 13 de fevereiro de 2020
    Carlos Eduardo da Cruz Luna

    SONETO: DESABAFOS DUMA OLIVENÇA INCOMPREENDIDA //(a propósito de inúmeras rábulas que a ela se referem, como a peça “A Reconquista de Olivenza”)

    Usam meu nome em sátiras jocosas,/
    ‘scritas p’ra citicar tod’ um passado;/
    atribuem-me culpas mentirosas/
    de factos alheios a meu triste fado…//

    Alvo siu de gargalhadas chistosas,/
    vej’ até o meu nome deturpado,/
    os “çês” feitos “zês” em frases pirosas,/
    louvando meu nom’ espanholizado!//

    Mitos sem sentido causam ilusão/
    num povo que deles vive sem pensar/
    o mal que fez por não saber dizer “não”!//

    Mas eu sou Olivença, que quer falar,/
    vítima que sou dos mitos sem razão/
    que tantos atacam sem p’ra mim olhar…///

    Estremoz, 12 de fevereiro de 2020
    Carlos Eduardo da Cruz Luna

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