Não é um exercício único da Raquel pensar como seria a sua morte. Nos dias mais angustiantes, talvez como necessidade de alguma espécie de consolo, já dei por mim a pensar a quem faria falta, quem me iria acompanhar nesse último dia, quem iria faltar.

Entramos no São Luiz e sentamo-nos, qual casa mortuária, em redor do caixão pousado sobre um manto de flores vermelhas. Somos acompanhados pelo Nuno, a Rita e a Joana – fiéis depositários do guião deste velório.

E somos levados, devagarinho, nesse abrandamento do ritmo frenético que nos acompanha. Basta recordar que estamos na porta do teatro e, se às 21h certas a porta não abre começamos a olhar para o relógio. Mas com a Raquel sinto sempre que abrando, que recupero a minha respiração e que consigo abrandar o passo ao ponto de colocar o pé no chão desde os dedos até ao calcanhar. É isso, deixo de andar em pontas numa vida atarefada.

Ser espetador da Morte de Raquel é celebrar um banquete da sua vida: a atual e a imaginada. É brindar aos amores e às lágrimas com a mesma distância e dando o mesmo valor. Mostrar fragilidades é talvez a forma mais corajosa de se lidar com elas e acaba por ser uma das maiores formas de força. E, enquanto nos engalanamos com cores garridas vamos passando do riso (quase sempre acompanhado por músicas) ao nó na garganta (o texto sobre as gravidezes faz com que a foto de apresentação do espetáculo tenha ainda mais força).

Começamos a peça em 1981, com o nascimento de Raquel. Fazemos a pausa em 2020 e posteriormente em 2080 fechamos a linha cronológica onde terminamos em Dança. No sul de Itália, na região de Taranto, a Tarantella era a dança usada como terapia – dizia-se que ao dançar se conseguia expulsar o veneno das Tarântulas mas também a melancolia, a tristeza e qualquer dor física ou psicológica. E assim, em modo catártico, terminamos todos num Jamaica ainda aberto onde os anos 80 nos fazem dar a mão ao David Bowie sentindo que “Vai doer, mas se for por Amor dói menos”

TEXTO E ENCENAÇÃO Raquel Castro
INTERPRETAÇÃO Joana Bárcia, Nuno Nunes, Raquel Castro e Rita Morais
APOIO DRAMATÚRGICO Pedro Gil
APOIO À CRIAÇÃO Keli Freitas
DESENHO DE LUZ Daniel Worm
CENOGRAFIA E FIGURINOS Ângela Rocha
SONOPLASTIA E MÚSICA ORIGINAL Diogo Almeida Ribeiro
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO Vítor Alves Brotas – AGÊNCIA 25
DESIGN GRÁFICO Isabel Lucena

Foto: Estelle Valente

Categorias: Teatro

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