O filme “A Hidden Life” retrata a história de um camponês austríaco, católico, que se recusa a ir para a guerra depois de receber a convocatória para combater. Não acredita em Hitler. Não considera aquela guerra justa.

A família procura o apoio da Igreja – uma instituição estranhamente indiferente aos valores cristãos – na qual não encontra o apoio que esperaria. Nas altas instâncias da igreja, fechadas na sua cátedra de fausto, não há espaço para quem acredita que fazer o bem não passa por alinhar numa guerra injusta e cruel em nome de um ditador sanguinário como Führer. Mesmo depois de preso e torturado e de lhe repetirem, em diferentes contextos, que a sua coragem – a insensatez de permanecer fiel às suas convicções – só podia ser, afinal, cobardia, Franz persiste.

O contexto era totalmente adverso a uma perspetiva anti belicista e contrária ao conflito armado. Muito menos era admissível que um camponês tivesse a ousadia de desafiar a ordem estabelecida do alto da ignorância que era atribuída a um homem do povo. Em plena segunda guerra mundial só em surdina os homens podiam revelar o medo de serem alistados. A guerra era encarada como instrumento de defesa do país e da pátria mesmo que isso significasse apenas destruição: perder amigos, familiares, companheiros e acabar com todas as oportunidades, pelo menos num futuro próximo, de alguma dignidade para as classes populares, por força da degradação das condições económicas. Muitos desconfiavam que Hitler não traria trabalho e pão, mas era mais que arriscado dizê-lo: era um atestado de óbito. O sentimento coletivo maioritário deixava corromper ideais em nome de uma obediência cega e a resistência defrontava-se com profundos dilemas.

Tal como na obra “Mortos sem sepultura”, de Jean Paul Sartre, retrato dramatúrgico do conflito existencial travado entre a resistência francesa e o confronto com a fação colaboracionista apoiante da ocupação alemã, o contexto de guerra produz uma profunda angústia nos seus interlocutores:

“Se ao menos pudesse dizer que fiz tudo quanto podia fazer. Mas talvez seja pedir demasiado. Durante trinta anos senti-me culpado. Culpado porque vivia. Agora há casas a arder por minha culpa, há esses mortos inocentes e eu vou morrer culpado. A minha vida não passou de um erro.”

Em tempos de guerra a lei era seguir, sem questionar, as ordens superiores que emanavam do chefe da nação. A ordem era seguir o chefe, erigido a ente divino, de acordo com a disciplina régia de um funcionário público que cumpre ordens sem olhar a meios e enfileirar a morte sem qualquer propósito.

Franz Jagerstatter camponês, recusa jurar fidelidade a Hitler até ao fim e mesmo depois de julgado e condenado à morte. Confrontado com a hipótese de assinar um documento para poder trabalhar num hospital, de acordo com a estratégia do advogado e que lhe proporcionaria a única a hipótese de sobreviver, recusa. Até ao fim nada o demoveu. A mulher, camponesa, acusada por uma sociedade machista e patriarcal de ser a propulsora da decisão é sujeita, assim como os filhos pequenos, às mais diversas humilhações pelos pares (ao desprezo, ao insulto, ao afastamento) e permanece fiel, intransigente, no apoio ao companheiro, mesmo depois do desespero e do medo a fazer dizer, na aflição que um presságio de morte de um ente querido provoca, que ele não iria mudar o mundo, que o mundo era mais forte… E foi por força dessa coragem que não fugiram para as montanhas e que, no momento final, ela lhe disse para fazer o que achava justo. E ser justo é sempre o caminho mais difícil. A ela, que só conhecia a vida dura no campo, restava a esperança que expressa numa deixa final, esperava que algum dia aquilo tivesse um sentido, servisse algum propósito. Parece que sim… O filme de Terrence Malick é de 2019 e surge depois de imensos filmes de guerra que tendem a exaltar o heroísmo da lei da bala. Além da fotografia belíssima, das interpretações magistrais, talvez seja bom tirar notas mentais da lição de Malick nestes tempos de convulsão que o vírus veio precipitar.

Numa sociedade que se quer democrática, de reivindicação feita numa lógica de disputa agonística, de luta permanente pela concretização dos direitos humanos, a paz só se constrói tendo como pilar o Estado Social e uma resposta consequente às necessidades coletivas, às minorias, às pessoas colocadas em situação de vulnerabilidade, e essa resposta tem que se ir (re)construindo permanentemente.

O contexto é da ascensão da extrema-direita que segue, no meio do alvoroço, sem freio, sem crivo, cavalgando o senso comum. E Portugal não ficou imune. Apesar do tanto que se fez para conquistar a liberdade, do processo revolucionário e constituinte que contemplou a consagração de direitos fundamentais (direito à saúde, à educação, ao trabalho, à habitação), o discurso de ódio, discriminação e intolerância penetra pelas falhas do sistema democrático.

As fissuras do Estado Social, a pobreza, a precariedade instalada sem uma resposta estrutural – apesar dos passos importantes que foram o caminho foi travado pela ganância do patronato e pela voragem do sistema capitalista pendurado em plataformas e em relações ficcionadas nas quais nem os trabalhadores se reconhecem enquanto tal – são condição necessária para que a extrema-direita se fortaleça. Exige-se a radicalização da democracia. Só ela pode romper este muro que se foi construindo entre as instituições e um povo descontente. E os tempos de crise são tempos certos para fazer as mudanças radicais que a sociedade reivindica e de que a democracia precisa para não capitular.

Referendo
E quando os vimos a desfilar
Em coro começámos a gritar
Nenhum de vocês sabe dizer não?
Não podem ficar assim calados
Estão a ser enganados
Essa guerra não vos diz respeito, não!
(…)
O OPERÁRIO MAIS NOVO
O que é que vamos, então, pôr no panfleto sobre o referendo?
A mulher reflectindo: O melhor era só uma palavra: Não!  

«Terror e Miséria», Bertolt Brecht

Categorias: Cinema

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