Porque razão amamos e odiamos Tony Soprano? Será o fascínio pelo poder que tem nas mãos, ou o carisma de James Gandolfini que nos inebria de tal modo que nos faz relativizar completamente o seu lado de assassino?

Soprano é um homem que, à primeira vista, tem tanto de sedutor quanto uma ventoinha cheia de pó em pleno Inverno: grande, gordo, careca, peludo, com fio e anel de ouro no dedo mindinho – o típico Feio, Porco e Mau. Mas, a verdade é que, ao longo de 6 temporadas, esparsas em 8 anos e meio (Janeiro de 1999 a Junho de 2007) e 86 horas de pura televisão de excelência, Gandolfini vai-se deteriorando fisicamente (morre aos 51 anos, 6 anos depois da apresentação do último episódio de Sopranos, em Itália, vítima de ataque cardíaco, com 115 quilos) e Tony Soprano vai conquistando o nosso coração, o nosso imaginário. Um homem maquiavélico e sem escrúpulos, que não olha a meios para cumprir e perpetuar a sua posição de Chefe do crime organizado de Nova Jersey. Ao mesmo tempo, T. (como é apelidado pelos amigos) é um homem apaixonado, um extremoso pai, um chefe (no verdadeiro sentido do termo) respeitado e admirado e um cuidador da sua família – condição que quase lhe rouba a própria vida.

A plataforma Netflix lançou, no início do ano passado, um documentário com as gravações do caso de Theodore Robert Bundy (Ted Bundy), um sociopata americano que, em apenas 4 anos, violentou, violou e assassinou mais de 30 mulheres em 7 dos 50 estados norte americanos. Nas gravações do julgamento no estado da Flórida, onde foi condenado à pena de morte por electrocução, centenas de mulheres confessaram o seu fascínio e paixão pelo serial killer, que acabou por se casar e ter um filho já no corredor da morte, onde esteve durante 11 anos. Há relatos de jovens mulheres que, ainda hoje, 30 anos depois da sua morte, fantasiam com os crimes de Bundy e declaram que gostariam que Ted estivesse vivo para que pudessem relacionar-se romântica e sexualmente com ele. Mas o que é que motiva estas jovens mulheres (que encaixam no típico perfil das vítimas de Bundy) a demonstrar e assumir esta devoção a um assassino sociopata?

É, mais ou menos, a mesma questão que se coloca com Tony Soprano, como é que este Chefe da Máfia atrai tantas mulheres enquanto amantes? Fama? Poder? Medo?

Todos sabemos que fama e poder são afrodisíacos por si só, eles podem determinar a atracção química ou física que venha a existir – o afrodisíaco trata de dominar o estrogénio feminino em resposta à testosterona masculina (hetero-normativamente falando, claro, porque é dessa forma que esta questão se coloca aqui).

Fama porque o ego, um dos princípios mais básicos do ser humano, de pessoas que sentem que não são o maior que poderiam ser, se alimenta ao lado de uma pessoa altamente (re)conhecida pela sociedade – pelo bem ou pelo mal. A sensação de ser “A escolhida” pelo sujeito em questão promove o sentimento de aceitação que se procura, de ser “especial” que, por sua vez, alimenta o ego. Como se a fama do outro funcionasse como uma doença sexualmente transmissível de uma parte para a outra, pelo menos no caso de mulheres para com homens, porque o contrário já outra (muito longa) conversa.

O poder vem sempre a par e passo com a fama. Apesar de uma cultura ocidental, extremamente civilizada, em algumas mulheres (reitero a condição hetero-normativa deste artigo), ainda sentem a necessidade de protecção e de cuidado e, um homem poderoso é um homem que consegue tudo o que quer, à partida essa protecção está, intrinsecamente, assegurada. No entanto, há um enorme problema com este tipo de homem, na maioria dos casos este homem é extremamente manipulador e com muito poucos escrúpulos. Mas, a fama concede-lhes alguma sensibilidade, proveniente da criatividade que os levou a estarem onde estão. É como apaixonar-se por um chef de cozinha (porque agora estão na moda…) estrela Michellin, manipulador, gordo, careca e feio – pensamos estar no mesmo pedestal em que o colocamos, sem nos apercebermos que nos destroem a cada falso “amo-te” que nos proferem em surdina, ao ouvido e nos leva a acreditar que somos especiais, apesar das suas outras amantes, da sua mulher, ex-mulheres e dos filhos (demasiado específico para uma analogia, não?).

Mas voltando a Sopranos, a Tony e a Gandolfini, para focar no ponto do medo. Um homem como Tony Soprano assusta e o medo fascina-nos – quem nunca apagou um fósforo ou uma vela e colocou, imediatamente a seguir, o dedo na ponta queimada, consciente da alta temperatura? O medo faz-nos reagir, ir buscar força anímica onde não imaginávamos que ela existisse. Por exemplo, aos 65 anos, a minha avó trepou uma árvore, cheia de finos ramos, como se fosse uma criança, porque se viu encurralada por dois Rottweilers desconhecidos.

Mas porquê todo este preâmbulo por uma, tão grande e tão hetero-normativa, generalização? Porque é exactamente isto que Tony Soprano representa – o homem cujos predicados ao nível da personalidade e status quo, definem completamente os físicos, longe daqueles exigidos pela maioria das mulheres de uma civilização ocidental (e americana também). Oh Hitler!, que boas intenções tinhas tu com o Holocausto! A esta hora o Mundo estava cheio de Kens, e a Mattel estava (ainda mais) rica com os direitos de autor que recebia das famílias – está muito claro para todos que a beleza custa uma fortuna!

O grande ponto de Sopranos, para mim que só vi a série em 2019, e o que comprova a genialidade da obra-prima de David Chase, é o final. É no final que “bate tudo”, principalmente o amor por Tony, acentuado, obviamente pelo precoce desaparecimento de Gandolfini. Aconteça o que acontecer, circulem as petições online que circularem, o maravilhoso Tony Soprano, aquele Tony, não vai voltar nunca mais! E isso intensifica o ambiente de culto que Chase conseguiu com esta, tão detalhada, pormenorizada e apaixonante série – é que no final queremos mais, muito mais. Mas não é o “queremos mais” de qualquer outra série, é o facto de aquelas personagens nos ficarem tão vincadas no peito, vilões machistas e maquiavélicos, mas ao mesmo tempo tão humanas, que não nos queremos desprender delas, mesmo que saibamos que isso pode não trazer muita felicidade e justiça (àquele) mundo.

Mas falemos agora das mulheres de Tony, nomeadamente de Carmela e da Dra. Melfi, elas ajudam, claramente, a elevar a personagem de Gandolfini. Carmela, eximiamente interpretada por Eddie Falco (mais conhecida nos nossos dias como Nurse Jackie), é a atípica mulher de um homem da Máfia Italiana. Conservando a característica submissa que determina a sua função de primeira-dama, é o bom exemplo da mulher livre, rebelde, capaz (pelo menos mais do que as outras) da sua independência e determinada, capaz de pensar por si. E podemos perguntar-nos como é que uma mulher como Carmela pode ser considerada livre num casamento e numa sociedade altamente conservadora, regida pelos ideais da Igreja Cristã, onde o divórcio é considerado pecado? Ao longo das 86 horas de pura televisão de excelência, percebemos que a liberdade da personagem de Falco está na escolha que faz ao continuar ao lado de Tony, ao qual, a determinada altura, já nada a prendia. A sua liberdade era o amor genuíno que tinham um pelo outro e a forma como Tony amava essa sua rebeldia – o que não acontece, por exemplo, com Adriana, o amor que tinha a Christopher, aspirante a Capitão e potencial sucessor de Tony, aprisionou-a até à morte, situação que nos demonstra um Chris (o homem repleto dos tais predicados físicos que faltam a Tony) menos escrupuloso de uma forma descontrolada, o que o torna muito perigoso. No entanto, a hora do desaparecimento do, então Capitão, é pesarosa e, no final fica a vontade de uma prequela que nos conte a história desta, acima de tudo, bonita e mal fadada personagem, tão bem interpretada por Michael Imperioli.

Sem Carmela, e contando apenas todas as amantes de Tony, que desfilam por camas incontáveis, a única mulher que verdadeiramente amou Tony Soprano, foi a sua médica psiquiatra, a Dra. Jennifer Melfi (Lorraine Bracco), que salta do clássico “Goodfellas”, para um gabinete de psiquiatria e parece trazer consigo todo o conhecimento e experiência na matéria da Máfia, que adquiriu através do casamento com Henry Hill (de certo, um dos papéis mais importantes da carreira de Ray Liotta). A acção secundária que se passa dentro daquele gabinete é importantíssima para o desenrolar da série. Primeiro porque desmistifica a psico-terapia com recurso a fármacos – se o Chefe mais bem sucedido da Máfia se submete, e precisa disso, afinal a terapia não é assim tão má – e depois porque demonstra uma das razões pela qual é tão fácil apaixonarmo-nos por um homem deste género. Nesse gabinete Tony, tal como quando se relaciona com em casa, deixa transparecer a sua sensibilidade, a sua vulnerabilidade, o seu sentido de humor, o seu verdadeiro ser. A par com a necessidade de ser cuidada, o tipo de mulher que se rende a estes homens, sente também uma necessidade de cuidar, de nutrir, como a um filho (porque este homem costuma desenvolver uma personalidade de criança, um eterno Peter Pan), julgam que são elas que o vão “salvar”, que o amor que lhes dão é o que precisavam para mudar o curso da sua vida – elas são “A escolhida”, A salvação. O problema é que este homem não se quer salvar, porque não está em “perigo”, nada está mal na sua conduta – Tony Soprano, cumpre um dever que herdou do seu pai e subtraiu ao seu tio, Junior “Corrado”, o dever que lhe corre no sangue, porque não concebe que seja de outra forma. E é com esse dilema que a Dra. Melfi atravessa toda a série, desenvolvendo uma paixão secreta pelo seu paciente, que o seu código deontológico lhe não deixa viver, mas mais do que esse código, o que a impede verdadeiramente, de viver essa paixão, é o amor que lhe tem. Apesar de toda a pressão por parte da família e dos amigos e de ter a consciência de que a sua vida pode correr perigo, Jennifer sabe que a melhor forma de lhe demonstrar e de gozar esse amor, é levar a terapia até ao fim, custe o que custar. Só desta forma conseguirá salvar Soprano da sua própria vida – e não é isto que quem ama deseja?

Encontrei um artigo de 2013 no jornal The New Yorker, que enfatiza tudo o que descrevi acima sobre Soprano e que, aliás, vai mais além, quando afirma que Gandolfini, um actor quase desconhecido do público americano, se torna icónico, alterando, no panorama americano, para sempre o status de mediocridade que os actores e as séries de televisão tinham em relação ao teatro e ao cinema. Gandolfini, que conseguiu tornar-se um sex symbol, como menciona o jornal “forced us to sympathize in the middle of disgust.” – é de facto a melhor, e mais concisa, definição deste Tony Gandolfini que aprendemos a amar enquanto ele cresce na sua ferocidade, coisa que Al Pacino, De Niro, Marlon Brando ou Joe Pesci nunca conseguiram – apesar da sua excelência indiscutível! – e a diferença não é (só) porque Gandolfini teve 6 temporadas para aperfeiçoar o seu Tony, porque a paixão é quase imediata.

Ao longo do ano de 2019 vi imensas séries, boas séries, entre elas A Guerra dos Tronos e Boardwalk Empire, depois de Sopranos, revi a saga O Padrinho, o Tudo Bons Rapazes e, obviamente, O Irlandês. Vi também Lillyhammer, difundida pela Netflix, produzida e interpretada por Steven Van Zandt, que foi o braço direito de Gandolfino, cujo primeiro episódio prometia uma qualidade semelhante a Sopranos embora noutro nível, como um spin-off de um Silvio que escapou ao tiroteio final e fugiu para uma pequena cidade Norueguesa. No entanto, Lillyhammer, falha redondamente, talvez pela inevitável comparação que Van Zandt impõe, sendo que Frank Tagliano é uma clara reinterpretação de Silvio, sem surpresa, sem mistério, sem espaço nem possibilidade para um novo imaginário. Aquilo que teria tanto potencial – a história de um membro da Máfia Nova Iorquina que se muda para a Noruega, através do programa de protecção de testemunhas por ter denunciado os seus antigos parceiros e que, apesar da sua nova identidade, não deixa de ser o velho mafioso e que acaba por transformar a pequena cidade, com uma cultura e sociedade completamente opostas à da Grande Maçã, pacata, sem criminalidade, bons costumes e boas pessoas (o típico estereótipo dos Países Nórdicos Europeus) num centro de crime, extorsão, roubo e contrafacção – acaba por se tornar num formato a roçar a “soap opera”. Lillyhammer não tem profundidade suficiente para nos fazer perdoar Van Zandt por ter “destruído” a cidade e manipulado a maioria dos seus habitantes.

Isto tudo para reiterar que acho que não tornaremos a ter uma história tão cativante, tão real e ambiciosa como Sopranos, nem um (anti?)-herói tão carismático e sedutor como Gandolfini. Eu, pelo menos, tenho a sensação de que não me tornarei a apaixonar por uma personagem como me apaixonei por Tony, com toda a minha alma, todo o meu carinho que toldam muito ódio e desprezo.

(este texto está também publicado em https://anacarinapaulino.wordpress.com)

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