O desafio partiu da então directora do Trindade, Inês de Medeiros, aos encenadores Beatriz Batarda e Marco Martins. Consistia em criar um espectáculo que marcasse os 150 anos deste teatro e, ao mesmo tempo, homenageasse Lisboa, a cidade onde se situa.

19 actores, 3 profissionais e 16 não profissionais, de origens diversas, habitam o palco por cerca de duas horas, desfiando histórias de vida, experiências, dramas, alegrias.

O dispositivo cénico é aparentemente simples: um palco despido, em que se vêem as janelas ao fundo, e a rua em frente, e um conjunto de microfones que Romeu Runa vai dispondo em combinações diferentes ao longo do espectáculo.

Um dos recursos estruturantes é o da tradução. Um actor fala na sua língua materna, e um outro traduz, o que acrescenta camadas e diversos níveis de compreensão por parte do público, uma vez que nem sempre (e propositadamente) as traduções são fieis. Se o espectador falar mais do que uma língua (há nove nacionalidades em cena), assim compreenderá melhor certas subtilezas.

As interpretações dos actores não profissionais vão desde o informal até ao extremamente tocante em vários momentos. Cada um tem uma personalidade marcante e distintiva, mas não deixam de fazer parte do todo.

Os actores profissionais são o fio condutor que sustenta o espectáculo: Romeu Runa, mestre de cerimónias (mas que também tem um extraordinário solo de dança), Miguel Borges, com a intensidade que o caracteriza, e Carolina Amaral, de uma versatilidade assinalável, dão o mote e pontuam as várias cenas de forma exímia.

A pergunta que me surge é “o que é um lisboeta?”. É alguém que nasceu em Lisboa ou, mais, é alguém que não tendo lá nascido, lá habita? E o que é Lisboa? É um lugar, mas é também as pessoas e as suas histórias, e o passado que carregam.

Este espectáculo é uma homenagem ao teatro e à vida.

Termino com uma citação de Jorge Luis Borges que podemos ler no programa: “O Original não é fiel à tradução”.

17 novembro a 10 dezembro 2017
Teatro da Trindade
Lisboa

Criação: Arena Ensemble
Encenação: Beatriz Batarda e Marco Martins
Colaboração: Victor Hugo Pontes
Com: Carolina Amaral, Miguel Borges, Romeu Runa
e Aline Caldas, António Alberto Figueira, António Vasconcelos, Benmerja Abdelkader, Dewis Caldas, Heitham Khatib, Hélder Pina, Jean Bruno Massy, Jorge Pedrosa de Oliveira, Laure Cohen-Solal, Lucas  Sadalla, Malena Camargo Caldas, Marco Pedrosa, Mick Mengucci, Moin Ahamed, Pascoal Silva, Safira Robens
Espaço Cénico: Fernando Ribeiro
Desenho de Luz: Nuno Meira
Sonoplastia: Sérgio Milhano
Fotografia: João Tuna
Produção: Teatro da Trindade / Fundação INATEL

Categorias: Teatro

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