O regresso às aulas é sempre acompanhado de outros regressos apaixonantes. Um deles, o regresso das temporadas nos nossos teatros.

Este fim de semana (15 – 16 set 2018) decorreu o “Entrada Livre” que é a altura do ano em que o Teatro Nacional D. Maria II nos mostra as suas “intimidades”, abre as portas para nos receber e para nos deixar conhecer a sua programação. Ao meio-dia de sábado, a bilheteira abriu e foi com um misto de stress e felicidade que vi uma fila que dava a volta ao teatro: dá gosto saber que as pessoas frequentam, que o teatro só não é mais vivido porque cada vez custa mais a viver numa cidade grande.

Dizia eu que estive na fila e quando cheguei ao inicio estava já quase tudo esgotado – consegui bilhetes para a peça Teatro. E é sobre ela que vos vou falar.

Uma peça de teatro sobre teatro! O que irá sair daqui. Um Rui Mendes com mais de 80 anos, uma Beatriz Batarda, uma Lúcia, um João, uma Cirila e histórias.

A peça começa de uma forma sóbria, numa espécie de monólogo que a certa altura se transforma na declamação da história: começamos a ouvir o Rui a descrever a forma como esta mesma peça vai acabar. Um momento intimista, um momento que nos faz olhar para dentro de nós, para a nossa relação com o Teatro e com a forma como a nossa infância se fez presente nele (ou não).

Entra uma força da natureza, uma Beatriz que mexe, que age, que reage, que dinamiza. Uma mulher furacão que ao mesmo tempo se transforma numa mulher carente ou numa mulher carinho.

O Rui e a Beatriz, são sem dúvida a base sobre a qual a peça é criada. Isto sem qualquer desprimor para a entrada da Lúcia Maria ou do João Grosso que vêm enriquecer o dueto.

A Cirila aparece-nos como uma empregada de limpeza e até ao final da história vai crescendo como personagem mostrando-nos um dos momentos mais bonitos aos meus olhos: a história do seu pai e da sua mãe. Sabe-nos a pouco, muito pouco e fica muita vontade de ver uma peça sobre os pais dela, sobre os pais de cada um de nós e o papel que representaram neste teatro que é a vida.

Após sair da peça, e sem querer revelar muito do que vi e senti durante a peça apercebi-me que, na minha interpretação pessoal (que pode ser muito diferente da interpretação do Pascal Rambert) o Rui, mais do que o actor desta peça representava, ele próprio, o teatro: aquele que nos acolhe desde crianças, aquele que recebe visitas furacão, aquele que quando faz anos nos recordamos com um sorriso e aparecemos mas que muito poucas vezes temos tempo para parar e dizer: Obrigada! O teatro que muitas vezes, dadas as dificuldades de financiamento, parece que desfalece, parece que está perdido mas que, mais do que tudo repercute efeitos nos corações de todos os que por lá passam. O teatro que é vivido, que tem mais de 80 anos e que esperamos que continue a andar de boca em boca.

Obrigada.

Teatro, de Pascal Rambert
15 set – 14 out 2018
Teatro Nacional D Maria II

texto, encenação e espaço cénico: Pascal Rambert
com: Beatriz Batarda, Cirila Bossuet, João Grosso, Lúcia Maria, Rui Mendes
figuração: Daniel Tapadas, Francisco Moiteiro
elenco infantil: Ásia Borralho Galante, Maria Abreu e Sara Barbosa
apoio ao elenco infantil: Sandra Pereira
assessoria artística: Pauline Roussille
tradução e apoio à dramaturgia: Joana Frazão
apoio: Institut Français à Paris, Institut Français du Portugal, Embaixada de França em Portugal, Companhia Olga Roriz, Infraestruturas de Portugal
produção: TNDM II
duração: 1h45 (aprox.)
M/12

Categorias: Teatro

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