Sócrates, o filósofo ateniense (469 a.C./ 399 a.C.), afirmou que três coisas devem ser feitas por um juiz: “ouvir atentamente, considerar sobriamente e decidir imparcialmente”. O mesmo deve ser feito com esta peça. Ouvir o texto, considerar o mesmo ao sabor de um copo cheio de lucidez e decidir com a maior imparcialidade o que queremos levar, no final do espetáculo, na nossa algibeira de filosofias e representações do mundo.

Apresentada no TAGV (Teatro Académico de Gil Vicente), “Sócrates Tem de Morrer” integra uma tetralogia dedicada à reflexão em torno de questões políticas, filosóficas, públicas e privadas que orientam a nossa sociedade: No(s) Revolution(s) (2015), A constituição (2016), Sócrates Tem de Morrer e A sauna.

“Acusado de não acreditar nos deuses e corromper a juventude com os seus discursos radicais, Sócrates foi julgado e morto. Assim, em 399 a.C., Sócrates foi condenado à pena de morte, executado várias semanas depois, lapso de tempo que possibilitou um último diálogo de Sócrates com os seus amigos.”

“Porém, o veredicto final coincidiu com o início das festas da cidade de Atenas que celebrava anualmente a vitória de Teseu contra o Minotauro, em Creta, período em que ninguém deveria ser morto. Manda uma lei do país que, a partir do momento em que se começa a tratar da peregrinação, a cidade não seja maculada por nenhuma execução capital em nome do povo, desde a partida do navio até ao seu regresso. Quando os ventos são contrários, a travessia pode durar mais tempo”.

“Sócrates Tem de Morrer” junta a figura reinventada de Sócrates (Albano Jerónimo), e dos seus fiéis amigos, Paulo (Paulo Pinto), Pedro (Pedro Lacerda), Maria (Maria Leite) e Ana (Ana Bustorff). O espetáculo conta os últimos três dias de Sócrates na prisão, na qual permaneceu durante um mês.

O início do espetáculo inteira-nos, de uma forma kitsch, da história de amor entre Paulo e Maria. No final da apresentação, os ventos mudam de direção e somos informados que a execução de Sócrates demorou 30 dias devido às festas na cidade. O cenário é constituído por uma mesa no centro de cena onde será festejado o aniversário de Sócrates. A partir daqui conhecemos cada uma das personagens, e vemos como cada uma mantém uma interação específica com Sócrates. Ele é o elo de ligação à acção e é ele que motiva as maiores reflexões. Nas palavras dele “o meu último desejo é não ter desejo nenhum” e por esse motivo não aceita nenhuma das formas de salvação que lhe são sugeridas.

Não obstante, os vários ventos em cena que visam alterar a rota de Sócrates são distintos entre si. Uns solicitam que ele saia disfarçado, outros apelam a sentimentos, e outros ainda apelam ao bom senso. Porém, é a Mãe de Maria que coloca as questões de forma mais acutilante: “tu deves ser é paneleiro”, colocando em causa a credibilidade de Sócrates devido ao facto de ele ser homem, branco e privilegiado. Seria ele (mais) respeitado se fosse uma mulher? Contudo, afirma também que ninguém o quer morto: “um quarto dos gregos ama-te, um quarto odeia-te e metade nem sequer te conhece. Mas nem os guardas concordam com a tua morte”.

Os dias passam e assistimos a uma reflexão sobre o corpo e a alma. O que é corpo? O que é a alma? Onde reside a alma? O que nos distingue dos animais? Trata-se de uma verdadeira aula de anatomia, onde todos somos convidados a reflectir sobre a condição humana sob o pressuposto da tábua rasa. Atrevermo-nos a pensar e meditar sobre estas temáticas sem preconceitos e deixando noutros mares o que eventualmente acreditamos que sabemos. No final de contas, o que é a verdade? O que é a vida? A morte é um fim ou um início? O que são os privilégios? Até onde vamos pela filosofia?

PAULO: Cada um de nós trouxe um presente. Seria indelicado da tua parte não aceitares os nossos presentes como forma de nos despedirmos de ti.
PEDRO (entrega com um cabaz de frutas e outras iguarias): Tens bananas, maçãs, morangos, frutos secos. Manteiga de amendoim e nutella. Eu sei que tu gostas de manteiga de amendoim, comecei a comprar e a comer porque tu gostas.
PAULO: Eu pedi à orquestra para tocar a tua música preferida. Instala-te.
(todos ouvem a música preferida de Sócrates)
SÓCRATES (para Maria): Só faltas tu.
MARIA: Pensei em dar-te não o que tu mais gostarias de ter, mas o que eu mais amo nesta vida.
SÓCRATES: A tua mãe?
MARIA: Não. Oferecer algo implica sempre uma noção de sacrifício, não é?
SÓCRATES: De certa forma, sim.
MARIA: Dou-te o Paulo, por uma noite.
SÓCRATES: Não fiquem tristes com o facto de não querer nada daquilo que me estão a oferecer. Aprecio tudo, desde a manteiga de amendoim ao Paulo.
Mas este não é o momento.
PEDRO: É assim?
SÓCRATES: É.

Esgotadas todas as tentativas de contrariar o discurso de Sócrates, inicia-se um plano complexo em termos de discurso, física, espiritualidade e, acima de tudo, de crença num novo mundo. O resultado? Sócrates reencarnará daqui a um ano e veremos a 2.ª parte. E nós?
Apenas um convite, seguido de um blackout:
“Então cowboys?”

Categorias: Teatro

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