Lene Cecilia Sparrok e Mia Erika Sparrok são irmãs na vida real, mas também na ficção. No filme “Sangue Sami” fazem parte da comunidade indígena Sami, na Lapónia, no norte da Suécia (comunidade também instalada na Noruega, Finlândia e Rússia).

O filme “Sámi Blood” venceu, em 2017, o Prémio de cinema Lux atribuído pelo Parlamento Europeu. A comunidade da Lapónia, pejorativamente designada de Sami pelos suecos, foi sujeita às mais diversas formas de racismo. A discriminação do povo Sami é retratada no filme e até de forma “suave”, como explica a atriz Lene Cecilia Sparrok, em entrevista, a propósito do prémio atribuído.

O povo lapão, nos anos 30, época em que decorre a ação do filme, foi forçado a ser fotografado nu, a medições do cérebro e do nariz, e considerado uma raça inferior à luz de estudos feitos à medida do preconceito e similares aos adotados pelo racismo “científico” nazi. Não frequentavam as mesmas escolas que os suecos e dificilmente conseguiam continuar a estudar. No argumento desta longa metragem a adolescente Elle Marja sofre um corte na orelha por um grupo de rapazes depois de reagir a insultos hediondos. Tentavam, com esse ato bárbaro, equipará-la a um animal tendo como referência as marcas que a comunidade faz na sua criação de renas nas montanhas. Elle Marja personaliza a revolta face ao estigma que a comunidade sofre: reage às humilhações,  não se quer sentir, como diz, “um animal no circo” e rejeita que apesar de se destacar como aluna lhe digam que não pode prosseguir os estudos, porque segundo a professora – a sueca que marcou o seu encontro com a poesia – apesar de brilhante “não tem capacidades como os suecos” e até porque na “escola os suecos aprendem outras coisas” .

A personagem principal do filme que, inicialmente, nos surge já idosa, acompanhado do filho e da neta para estar presente – ainda que aparentemente contrariada – no funeral da irmã, faz uma viagem ao passado. Anos depois não é capaz de uma palavra de ternura quando lhe dizem que a irmã a esperou e cuidou dos animais que eram dela e finge não perceber a língua Sami. Anos depois quando um grupo de burguesas, sentadas no hotel, falam dos Sami com desprezo pelo barulho que fazem (um ultraje já que pagaram um fim de semana tranquilo) apressa-se a concordar com todos os dislates e volta a renegar a sua origem. Repete à família(filho e neta) que já não tem nada a ver com aquela gente e que acha a música típica dos lapões, o Yoik, estridente e abandono a meio o almoço que a sua família Sami preparou depois do funeral.

É na vertigem contra o seu passado que lá retorna: ao afeto da irmã para quem transferiu, injusta e dolorosamente, tanta da amargura da opressão a que foi sujeita. Volta à recordação do momento em que apelida a irmã de “Sami nojenta” depois desta a chamar quando tinha fugido para um baile em que se infiltrou para se poder misturar com suecos. Nesse dia, Marjia apareceu sem o traje típico Sami, usando um vestido diferente e foi nesse baile que se apaixonou equivocada ou deliberadamente por um sueco. Hesitamos sempre na perceção do limbo da personagem entre a emoção e uma cerebral ambição. Esse rapaz é também a sua ligação ao futuro, aquele em que pode ser professora e almejar uma vida diferente. Na verdade, ali adquire uma outra identidade, outro nome, Christina, a que vai usar para poder estudar. Certo é que não parece nunca deixar de se sentir diferente. Esse sentimento vai acompanhá-la. Quando lhe é pedido, depois de descoberta a sua origem, que cante a música tradicional do seu povo a estudantes de Antropologia, numa curiosidade pedante e obtusa durante uma festa, percebemos a humilhação que sente. Parecem observar um animal exótico numa jaula, a cantar para gáudio e esgar coletivo. Marjia sai a meio consternada. O jovem sueco pede-lhe desculpa e ela pede-lhe dinheiro para estudar, já depois dele ter rejeitado que fizesse as limpezas em casa dos pais dele para pagar os estudos. E a rejeição retorna sempre. Não pertence ao lugar onde nasceu e não pertence aquele lugar onde não a reconhecem como igual. E afinal é mesmo a família que renega que lhe dá um bem para vender e pagar os estudos. Mas não volta a regressar.

No final do filme, o derradeiro encontro com passado, abre o caixão e pede perdão à irmã, já morta, tal como pediu quando a renegou e a irmã, calada, fingiu não a ouvir deitada na cama. Renegar. Renegar sempre. Já velhinha, em desespero, trepa a montanha, desgrenhada, como se recuperasse uma condição selvagem que reprimiu durante anos e observa a sua terra do pico da montanha. O lugar que amou e abandonou.

Afinal Marija nunca venceu o preconceito. Foi quando aceitou que ele se mantivesse e negou quem era que ele se ergueu sobre ela, tão ou mais alto que qualquer montanha.
Este filme da sueca Amanda Kernell (também com origem Sami) é como se lê algures um testemunho de colonialismo interno, testemunho que tardou em chegar ao espaço de denúncia que também é o cinema. Infelizmente este filme não esteve nos circuitos comerciais apesar da qualidade das interpretações – Lene Sparrok tem uma interpretação memorável e demolidora – da relevância do tema e até do prémio atribuído. Se parece pouco verosímil no argumento a forma como a personagem consegue encontrar uma oportunidade fora do seu lugar de origem talvez isso não seja muito relevante… A prova de que a História se faz, também e, se calhar, sobretudo da recuperação de espaços de silêncio e invisibilidade tem neste filme um excelente exemplo.

O recurso ao termo Sami não é bem acolhido pelos Lapões que o encaram como um termo pejorativo. O recurso a essa expressão ao longo do texto deverá ser lida tendo presente que surge apenas com a preocupação de denúncia e não de reprodução de um estigma em relação ao grupo étnico em causa.

Categorias: Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *