De como um simples abraço caloroso pode ser um momento de amor.

Se tivesse que resumir a performance “Rosa Crucificação” numa só expressão seria aquela. Mas vou dizer mais.

Mónica Calle insiste, e bem, nos temas que tem vindo a trabalhar nos últimos anos: sexo, amor, solidão, companhia. Temas que fazem parte das nossas vidas e que, por um motivo ou outro, nem sempre são encarados de frente ou alvo de reflexão.

Chegamos ao “Mise en Scene”, o espaço onde terá lugar a performance. Um portão, não identificado, impessoal, é o primeiro contacto. Trata-se de um clube de sexo, discretamente localizado, como ainda é necessário. Tocamos à porta e entramos. Ambiente bem decorado, mal iluminado mas acolhedor, como convém. Acho logo que é o local perfeito para a performance. Senti a tensão daquele local, apesar de ser um sítio para quebrar inibições. Mas isso diz mais de mim do que do espaço.

Encontro amigos, com quem converso. A certa altura a música muda para temas de amor, e apercebo-me de que a performance já começou.

Monica surge, vestida de preto, vinda da cave. E para lá leva, um a um, os 15 elementos do público.

Nessa cave, a pedido da performer, cada pessoa faz uma escolha sobre a forma como ela está mais vestida ou despida, começando nos sapatos e acabando no perfume. Tudo com calma, tudo com sentido. Ela dá o poder ao “outro”, aos “outros”, de quem decorou e usa o nome próprio.

Depois da personagem composta, diz um texto, fruto da sua pesquisa. Tocante, íntimo, sexual, pessoal(?). Ficamos a reflectir sobre o que ela nos diz, sobre encontros e desencontros, sobre amor, sobre o tal abraço caloroso.

No final da performance, já noutra sala, a nudez, e uma aproximação ao que se passa normalmente naquele local, com uma descrição crua de um episódio lá passado. Este vosso escriba, virgem em tais ambientes, escuta com curiosidade, mas também com algum desconforto. Mas sente que faz sentido, que nos devemos confrontar com o desconforto e com o desconhecido. Assim crescemos.

Mónica sai da sala, novamente ao som de música, e deixa-nos lá, novamente a reflectir por uns minutos. À saída, faço um tour pelo espaço, onde tantas fantasias se tornam realidade e penso que fazem falta performances assim, que nos confrontem connosco e com os nossos desejos.

Categorias: Performance

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