Em agosto o ritmo abranda. Num ano normal as casas de espetáculos e teatros iam calmamente fechando as portas para balanço, para renovação de energias e para preparação do ano letivo – engraçado como a Cultura nos brinda com esta semelhança com a Educação; serei a única a compreender a mensagem que se encontra aqui?

Mas, também como já é hábito existem alguns bons vícios a ser repetidos: depois de termos sido brindados no ano anterior com “Troianas” de Eurípedes, o António Pires traz-nos agora a sua encenação da peça “Rei João”, de William Shakespeare. E mantendo a localização nas mágicas Ruínas do Carmo, o Teatro do Bairro volta a mostrar-nos que continuamos a ser nós a deslocar-nos até ao Teatro mas, às vezes, por breves momentos, o Teatro também caminha para nos encontrar.

O que poderá ainda dizer-se sobre Shakespeare? Muito. Neste caso, de acordo com a informação disponibilizada vamos ver uma peça que ainda não teria sido encenada em Portugal. Mais uma vez, os clássicos a surpreenderem-nos e a mostrarem que há sempre possibilidade de ver diferente, de ver novo. De ver pela primeira vez.

Este Rei João, que nos acompanha desde tempos idos de infância, é aquele Rei malvado que todos acompanhámos nas aventuras de Robin dos Bosques. Que cobrava impostos altíssimos, que não tinha coração – não era bom para o povo nem para os ladrões do povo. Naquela aceção de bom que nos coloca tudo como preto e branco; como se só se pudesse ser intrinsecamente bom ou intrinsecamente mau – como se a personalidade humana não fosse mais do que um reflexo num espelho, uma imagem unidimensional, sem profundidade.

E vemos a história: de um rei que se torna nisso sem para isso ser criado por diversos revezes na história de sucessão familiar. E, num perfeito exemplo de quem não tem unhas para tocar essa viola que lhe cabe, toma medidas mais ou menos compreensíveis: entra em acordo com França fazendo o casamento de sua prima, a princesa Branca de Castela com o Delfim de França Luis VIII; entra em guerra com França; entra em choque com a Igreja sendo excomungado e cai nas graças da Igreja sendo abençoado. Entre todos estes acontecimentos, para garantir o seu lugar no poder engendra o assassinato de Artur, seu sobrinho, que seria o herdeiro do trono e o substituiria.  Aqui, vemos então uma mudança acontecer: Após decidir e dar ordem a Hubert sentimos no seu espírito o peso de uma decisão tão ignóbil. Da mesma forma o sentimos em Hubert, indeciso entre o seu carinho pela criança e o seu brio laboral, a sua obediência ao seu Rei. E por momentos compreendemos que afinal o mau, sempre mau também pode ter consciência. Que uma decisão estratégica pode ferir tanto como uma decisão de coração.

E as mães: de um lado Leonor de Aquitânia – uma mãe que teve as suas perdas e que defende com todo o seu fervor maternal o seu filho João, inclusivamente contra o seu neto Artur. Do outro, Constança, Duquesa de Bretanha, que sente na pele a injustiça feita ao seu filho Artur, que o defende como só uma mãe pode defender e que quando o sabe em cativeiro perde o norte como se o seu ponto cardeal, que a fazia ser a mulher forte e mãe coragem, se tivesse extinguido.

Devo ainda referir a personagem que se torna sempre a mais risível: o Philip, bastardo do Rei Ricardo I. Como se fosse um ponto vamos recebendo durante a peça algumas frases cheias de ironia a que o ator deu uma belíssima interpretação.

Um cenário simples mas bem integrado no espaço criado pelo Arquiteto que trabalhou no espaço do Teatro do Bairro conjuga-se perfeitamente com um guarda-roupa sóbrio e inteligente que dão o devido relevo ao texto e à sua adaptação. A luz e o som acompanham com excelência os momentos chave da peça.

No fim, uma lição é tirada – cada um tirará a sua. No final, eu senti vontade de ler mais sobre as personagens; de tentar não ver só o branco e o preto; de tentar não limitar uma vida e alguém a um momento mais conhecido que pode ser menos bom: afinal, não é isso que devemos também fazer na vida?

Rei João, de William Shakespeare
29 de julho a 15 de agosto
Museu Arqueológico do Carmo

Encenação: ANTÓNIO PIRES
Tradução e Versão para Palco: LUÍSA COSTA GOMES
Com: ALEXANDRA SARGENTO, CAROLINA CAMPANELA, DINARTE BRANCO, DUARTE GUIMARÃES, FRANCISCO TAVARES, GONÇALO NORTON, JOÃO BARBOSA, LUÍS LIMA BARRETO, MARIA JOÃO FREITAS, MÁRIO SOUSA, RAFAEL FONSECA e SOFIA MARQUES

Categorias: Teatro

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