Normalmente gosto de ir a um espectáculo sabendo ao que vou. Leio algo sobre o que vou ver, tendo muitas vezes entrevistado alguém da equipa artística para o Coffeepaste. Mas às vezes vou à descoberta, às escuras. Foi o caso com “Purificados”. Confesso que não sabia da obra e vida de Sarah Kane, autora do texto.

Segundo depois soube, Kane escreveu a peça depois de ter lido a citação de Roland Barthes que diz que “estar apaixonado é como estar em Auschwitz”.

A acção de “Purificados” passa-se num hospital (campo de concentração? prisão?), onde os vários internos são sujeitos às maiores crueldades pelo sádico Tinker. Várias histórias de amor trágico se cruzam: Dos irmãos Grace e Graham, dos amantes Carl e Rod, de Tinker e a bailarina, de Robin por Grace. Todas as personagens são postas à prova, todas as histórias acabam mal, a julgar pelas normas vigentes.

Os limites da crueldade são mostrados ao longo das várias cenas, os limites do amor e da resistência são testados. A violência perpassa toda a obra, a violência física, verbal e psicológica. De tão grande é quase inacreditável mas, pela forma como é encenada, não passa a barreira.

O elenco está todo a um nível alto, intenso, credível, e imagino que necessitem de uma experiência purificadora (leia-se positiva) depois de cada espectáculo. As cenas de violência física são tornadas impressionantes, para além das interpretações, pela música e luz que as complementam.

Volto ao inicio: Por ir impreparado, sujeitei-me a um murro no estômago ainda mais forte. Escolhi o espectáculo certo para o fazer.

O amor sobrevive, ainda que na tragédia… Será?

Purificados, de Sarah Kane
Tradução Maria João da Rocha Afonso
Com Alexandre Carvalho, Érica Rodrigues, Joana Jorge, João Cachola, João Jesus, Luís Barros e Romeu Vala
Música Original Gil Amado
Encenação Gonçalo Carvalho
Produção Palco 13
M16

Foto de Alfredo Matos

Categorias: Teatro

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