Pantagruel é um gigante de força incrível e apetite voraz, um comilão cuja infinita gula Rabelais tornou famosa. Este gigante esfomeado, personificação do exagero, protagoniza os episódios mais inusitados, onde o seu tamanho e apetite são protagonistas. A nova temporada do teatro abre com o espectáculo A Vida Vai Engolir-vos, uma encenação de Tónan Quito que abarca, na sua concretização, as quatro famosas peças de Anton Tchékhov, A Gaivota, O Tio Vânia, Três Irmãs e O Ginjal, e os teatros Nacional D. Maria II e São Luiz Teatro Municipal.

O gigante de Tónan Quito não é um livro de culinária. Mas é um Pantagruel que experimenta ao longo de perto de 10 horas de espectáculo um modo de cozinhar que vive de referências e citações de outras encenações e universos já praticados a propósito do dramaturgo russo. É difícil não pensar n’A Vida Vai Engolir-vos como um (espectáculo) gigante, com fome de Tchékhov, com gana de devorar o seu público, que promete comer vivo o espectador ao mesmo tempo que oferece à plateia uma “refeição completa”, composta por um estudo cénico que se constitui como um desafio criativo, físico e dramatúrgico – tanto para o elenco como para quem assiste.

O espectáculo apresenta-se como uma tese cénica das narrativas tchekhovianas: o gigante (ou a Vida) que tem vontade de engolir o seu espectador é, afinal, o prato comido, sem que nenhuma das peças trabalhadas seja servida como prato principal ou outra como sobremesa. A receita é fácil de perceber: o encenador reuniu num mesmo texto as quatro peças do dramaturgo, num trabalho de dramaturgia ambicioso, bem urdido, que se desenvolve a partir de uma sucessão de cenas de Tchékhov, cumprindo, à vez, e na sua totalidade, as quatro obras escolhidas.

Em A Vida Vai Engolir-vos tornam-se evidentes as simetrias, repetições temas e questões frequentes do autor, insinuam-se clichés do próprio dramaturgo. Espelham-se cenas que se refletem entre si, e é criado um caleidoscópio de personagens que “correm” com fluidez entre o(s) textos(s) d’ A Gaivota, O Tio Vânia, Três Irmãs e O Ginjal.

Haveria eventualmente o risco de se assistir a uma sucessão de sketches de Tchékhov, uma vez que o espectáculo não experimenta a contracena entre personagens de peças diferentes. Mas tal não acontece, e esta é a verdadeira beleza do espectáculo: não há uma narrativa a ser contada, não se compõe uma nova história a partir das obras originais. Apesar de se estar perante uma sucessão de cenas, estas convivem entre si com naturalidade, sem que se sinta os sulcos das passagens entre os diferentes dramas, feito que só o apetite pantagruélico de Tónan Quito por Tchékhov poderia tornar possível.

A extensão é sem dúvida necessária à experiência, pois só por via do tempo se revela, sem eliminar partes, de que modo esta convivência entre histórias, intervenientes, e peças é possível. Não é apenas um exercício longo de interpretação, é também um teste de verificação de estruturas, de composições, de cumplicidades e traições que dramaturgo e encenador cometem consigo próprios. É claro que o gigantismo do tempo é necessário para comprovar este ponto. Assim, a refeição é farta, e em alegre companhia. O ritmo do espectáculo é exímio para uma obra cénica que se prolonga por mais de 5 horas (se vista em duas vezes) e por mais de 10h naquilo a que o próprio espectáculo designa “Maratona”.

A extensão temporal não revela outra necessidade forte para além da pretensão de fazer cumprir, como promessa fora, a encenação das 4 peças em simultâneo. Por isto, o estudo mais virtuoso está na tarefa dos actores que se encontram em trabalho, numa verdadeira prova de endurance, física, emocional e criativa. A experiência coloca o elenco à prova como uma partida, uma aposta, uma missão que os actores cumprem de modo bravíssimo, sem se deixarem afetar pelo eventual (e natural) cansaço. Apesar de contar com um elenco bastante equilibrado entre si, por vezes tornam-se evidentes algumas fragilidades nas interpretações de algumas personagens. Destaca-se o desempenho de Rita Cabaço, que é quem traz maior novidade aos papéis que interpreta.

Comer Tchékhov até à exaustão foi não só o desafio aceite pelo elenco deste espectáculo (do qual faz também parte o encenador), como é o desafio aceite pelo público que a ele assiste. Uma verdadeira competição de engolir, de um só trago, as principais obras do autor, um feito para verdadeiros atletas. Se esta é uma prova de esforço para o elenco, não deixa de representar também, para o público, uma prova de “corajosos” e de “resistentes” – adjectivos frequentemente atribuídos nas redes sociais àqueles que se mantiveram, até ao fim, a assistir ao espectáculo (sobretudo nos dias de Maratona):  engole-se o desconforto, o pensamento sobre a importância do wc, conversa-se com o estômago, distrai-se o sono e a dificuldade em respirar com máscara… Tudo isto sempre à mesa da vida das personagens de Tchékhov, que seguram o que nos servem de modo irrepreensível. O espectador fica intimidado por tal gigante (que é a proeza destes actores) … Mas a Vida engole-o… A do próprio, não a do palco.

A elegância dos figurinos de José António Tenente alimenta não só a aura dos ambientes das quatro obras dramáticas, como vive de citações de encenações famosas das peças do dramaturgo (como por exemplo a utilização do branco para as personagens de O Ginjal). Incita e delineia o código de troca de personagens que os actores praticam – um recurso não original, mas eficaz para que o acompanhamento do espectador seja facilitado no acompanhamento das diferentes narrativas: cada vez que um actor muda de personagem, muda de figurino. Este código de troca de figurino aquando a troca de personagem é instituído e praticado durante grande parte do espectáculo para que, próximo do seu final, possa ser questionado, revertido, traído, em favor das revelações maiores que pertencem não só a cada personagem de cada obra em particular, mas à Vida, em geral. Contudo, é sempre necessário um grande domínio das peças em trabalho por parte do espectador, para que este possa realmente acompanhar a proposta que o espectáculo pratica, sobretudo para que compreenda este tipo de preciosidades relacionadas com distribuição e diluição de discursos e de personagens. De outro modo, é possível que guarde como recordação apenas uma amálgama de nomes de entoação estranha cujo mapa de relações não é fácil de entender.

O espaço cenográfico de F. Ribeiro, a par do trabalho do desenho de luz de Daniel Worm e da sonoplastia de Pedro Costa desenvolvem, com graciosidade e eficácia, entre a metáfora e a literalidade, os ambientes das diferentes personagens e das diferentes peças. Concretizam no espaço o mesmo que a encenação concretiza no texto: uma dramaturgia cenográfica que serve todas as obras, e que evolui do espaço urbano (doméstico e dominado, na primeira parte), para um espaço revestido de vegetação na segunda parte (onde se tornam evidentes as ervas daninhas das vidas das personagens).

Contudo, e paradoxalmente, com excepção da condição do tempo, a encenação é convencional, assim como os seus códigos. Apesar de ter objetivos bem definidos, a fórmula segundo a qual se desvenda o espectáculo torna-se óbvia ao fim de duas horas. O calcanhar de Aquiles de A Vida Vai Engolir-vos prende-se precisamente com o seu gigantismo, com a questão da utilidade da extensão do efeito dramatúrgico que tanto seduz como intimida o seu espectador: “Produz efeito e não passa disso, mas só com efeitos não se vai longe”*. Que interesse teria Pantagruel se não tivesse um tamanho excêntrico e uma gula maior ainda?

*A Gaivota, A.Tchékhov.

Direção Artística e Adaptação: Tónan Quito. Textos: Anton Tchékhov. Tradução: Nina Guerra, Filipe Guerra. Com: Álvaro Correia, Gonçalo Waddington, João Pedro Mamede, Leonor Cabral, Miguel Loureiro, Mónica Garnel, Rita Cabaço, Sílvia Filipe, Tónan Quito. Cenografia: F. Ribeiro. Desenho de Luz: Daniel Worm. Figurinos: José António Tenente. Desenho de Som: Pedro Costa. Assistência de Encenação: Mirró Pereira. Apoio à Dramaturgia Miguel Loureiro. Produção Executiva: Armando Valente, Cláudia Teixeira, Vanda Cerejo. Produção: Homem Bala. Coprodução: Teatro Nacional D. Maria II, São Luiz Teatro Municipal, Teatro Municipal do Porto, Teatro Nacional São João. Apoio: O Espaço do Tempo. Apoio ao espetáculo: Sogrape

Parte I – 2 de Setembro de 2020, Sala Luis Miguel Cintra, Teatro Municipal São Luiz Parte II – 3 de Setembro de 2020, Sala Garrett, Teatro Nacional D. Maria II

(Este texto está também publicado em www.ocalcanhardeaquiles.wordpress.com )

Categorias: Teatro

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