Chovia imenso no exterior do São Luiz. Ouvia-se “As time goes by” no piano.  Não há como não reconhecer ao primeiro acorde. Era difícil enquadramento mais bonito, mesmo sem se entrar no salão de Inverno, que peca sempre pelo excesso de beleza.
A “Ocupação” estava quase a começar e sentia-se a inquietação de um ensaio geral prestes a acontecer, naquela azáfama de segredo, silêncio e ruído abafado.

Quando escrevi os dois parágrafos iniciais deste artigo, naqueles instantes de espera, ainda não sabia que uma das cenas, talvez das mais bonitas, pela sua simplicidade é, precisamente, passada no salão de inverno, a sala em que somos recebidos por D. D., sim. As personagens parecem sempre fantasmas, referidas pelas suas letras iniciais, o que nos distancia delas, torna-as menos reais e, por vezes, demasiado distantes. D. fala da sua plateia vazia. Conta, numa nostalgia indisfarçada, que antes funcionava, ali perto, um cinema de propaganda nazi e, do outro lado, um cinema pró-aliados. O pianista toca “As time goes by”, música emblemática desse clássico, incontornável, chamado Casablanca, cuja referência não se deixa escapar. Sim, claro que se dança a dado momento. E há ali uma profunda solidão, naquelas cadeiras que ficarão vazias quando formos embora, naquela plateia sem gente.

Para quem nunca tenha assistido a uma peça da companhia Teatro do Vestido importa, talvez, explicar que os espetáculos têm uma dinâmica própria. O público é dividido em pequenos grupos e os guias (que, nesta peça, assumem o duplo papel de atores e guias) vão-nos encaminhando para cada uma das cenas. O dentro e fora de cena confundem-se e os espectadores são parte ativa e um pouco mais que figurantes. Esse é um dos segredos da riqueza dos espetáculos, mas também da enorme exigência da encenação e interpretação dos atores. Vários quadros acontecem em simultâneo e só as cenas, final e inicial, são conjuntas.

Há muitos livros, muitas experiências, ideias que se cruzam, enquanto tentamos agarrar fios soltos. É um caos que ganha sentido no final que é também um começo. O “caos é uma ordem por decifrar”, já o dizia Saramago. E temos ali os mestres de obras desse projeto de caos em movimento. Também por essa razão cada um dos grupos, com guias e atores diferentes, presencia várias cenas/quadros diferentes, que mudam, ainda, consoante a pulsão e a emoção de cada um dos atores. No meu caso, foi com a Lavínia Moreira que fiz o percurso até a derradeira cena final/inicial. Com ela enfrentei a chuva nas ruas lisboetas, as memórias de incêndio no Chiado, vi as fotos do muro de Berlim, e com ela encontrei o João, o encenador com nome, mas sem peça, a sair da porta de entrada do São Luiz. E foi, mais ou menos, assim…

“João queres entrar na cena?” – Lavínia

(João aceita o repto com entusiasmo e atravessa a rua)

“João, vamos descer a rua de mãos de dadas?” – Lavínia

“Descer a rua, de mãos dadas, à vista de toda a gente?” – João

“À vista de toda a gente.” – Lavínia

“E depois?” – João

“Depois vamos descer a rua de mãos dadas” – Lavínia

“Qual foi a vez em que te sentiste mais perdido?” – Lavínia

“Agora”. – João

(…)

E falava-se de se comprar um novo bilhete para uma mesma peça ou para outra. E de uma nova oportunidade. Lavínia assim fez. Comprou um novo bilhete na bilheteira do teatro.

Ali, ali ao fundo, naquele dia de começo, no dia 25 de abril de 1974, quatro jovens tinham sido assassinados, a PIDE tinha disparado sobre a multidão na Rua António Maria Cardoso. A peça fala-nos disso. E de dar uma oportunidade às peças mortas, feitas, acabadas, os tais cadáveres no chão, de lhes darmos uma segunda oportunidade. De lhe resgatarmos o passado e o tornarmos doce, agora.

Lorca, Oscar Wilde, Resnais, Tchekov, Weiss, entre tantos outros, são apropriados pela costura habitual de textos feita por Joana Craveiro.

Quando tudo começa, mas ainda nada começou, o frente de casa diz-nos que não é frente de casa. E alguém explica que: “Está tudo errado”. A didascália errada. As paredes não são azuis como deviam.  A folha de sala tem que ser substituída. Trazem livros nas mãos. Os livros que vão enfrentar o crivo da censura, os livros que se vão, também, transformar em cadáveres no São Luiz, nas salas, nos corredores, nas escadas. O que são estes cadáveres? Peças agora mortas. Lavínia segue com “A cidade das flores”, de Augusto Abelaira, para todo o lado. E é curioso constatar a estupidez da nota da censura, a nota que nos é dada a ler, e que deixou escorregar aquela obra pelas suas malhas. O censor reconhece, com ligeireza e descrédito, que o autor terá passado por Itália e não terá simpatizado com o regime de Mussolini. Que força essa a da dissimulação das metáforas.

Uma voz dizia, a dado momento, algo como isto: “Eu não sou do princípio, nem do fim, sou do meio que é sempre o sítio mais lixado para se estar”. Pois. É o tal lugar da inquietação, que vê o fim como início, que vê o fim como começo ou recomeço.

No meio de tantos corpos, de tantas peças, há coisas que nunca acabam, que se renovam. “O passado é como a cena de um crime”, repetia a Lavínia, naquele quarto pequenino, a meio das escadas, com matrioskas dispostas em cima de uma escrivaninha.

Quando o presidente da câmara inaugurou o Teatro São Luiz, o teatro municipal situado ao lado da antiga sede central da PIDE, disse: “aqui a censura não entra.” Claro que se enganou.

E enquanto bebemos um espumante, ouvimos o poema da Sophia, “Às vezes”. Tudo para depois encontramos aquela atriz que deixou de ser atriz a falar ao telefone com o seu amor perdido: ele deixou-a, ela chorava. “As cartas… Se queimares as cartas guarda as cinzas naquela caixa de pele de tartaruga que eu te dei”. “Sabes eu não gosto de mentir. Não fui sair com a Marta, não estou com o vestido cor de rosa”. Dizia isto enquanto a espreitávamos e ela fechava a porta e dizia: “Não vejo o que vos possa interessar. É só uma história de amor. Banal”.  Qualquer coisa como isto. Pior que isso a atriz deixou de ser atriz. Coisas da censura, parece.

Na realidade, “Ocupação” fala-nos também da espera, lembrando um outro poema de Sophia, enquanto uma ampulheta faz parecer o tempo mais vagaroso do que é na realidade. Afinal, quando reparamos os anos voaram naqueles corredores.

“Dei-te a solidão do dia inteiro
Na praia deserta, brincando com a areia
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro.”

Sophia de Mello Breyner Andresen

E não, este poema não faz parte do espetáculo, mas é absurdo que não façamos a nossa peça dentro das peças que vemos. Afinal, é disso que se fala. Espera, sim. Nem que seja da espera, naqueles intervalos de uma hora que existiam, no passado, nas peças de São Luiz, e de que Lavínia nos fala, ou quando aguardamos o casal do livro de Abelaira, que nos conta do amor e da revolução, naquela rua, junto ao teatro, afogada em chuva. Claro que percebemos que toda a peça é uma reconciliação com as memórias (e não é sempre assim nas peças da Joana Craveiro?). Sim, é uma reconciliação com o teatro do passado, com o que foi escrito, censurado, encenado, esquecido, com as memórias que são também as de cada um, sempre reinventadas. Não nos enganemos ainda assim. É também uma peça do presente. Do que, hoje, pode ser.

A chuva torrencial que se ouve em cena (e que, curiosamente, também esteve lá fora, nos pedaços de rua que percorremos durante o espetáculo) e, tantas vezes, referenciada, evocada, efabulada até. A chuva é como esse véu que permite desnudar as vozes silenciadas, como se cada uma delas pudesse fazer-se ouvir, na plenitude, finalmente. Sim, é como se o som da chuva abafasse as vozes com o seu tumulto, libertando-as da opressão.

Repete-se que tudo vai correr bem. E quando, a dado momento, se ouve a voz de John Lennon, percebe-se que talvez esteja ali uma provocação para uma renovada revolução.

“You say you want a revolution
Well, you know
We all want to change the world
You tell me that it’s evolution
Well, you know
We all want to change the world

But when you talk about destruction
Don’t you know that you can count me out
Don’t you know it’s gonna be
All right, all right, all right”

The Beatles

(Black out final) A didascália novamente lida. Ouve-se, repetidamente: “Começou”.

Esta peça traz a irreverência e a constatação de tudo acabar quando começa ou de nada acabar.

Black out final. Começou.

Ocupação, de Teatro do Vestido
Direção, conceção e texto Joana Craveiro Interpretação Alexandra Freudenthal, Ana Lúcia Palminha, Carlos Fernandes, Carlos Nery, Daniel Moutinho, Elisabete Rito, Estêvão Antunes, Francisco Madureira, Gustavo Vicente, Inês Minor, Inês Rosado, João Ferreira, João Silvestre, Lavínia Moreira, Mafalda Pereira, Maria Emília Castanheira, Maria José Baião, Rosinda Costa, Simon Frankel, Tânia Guerreiro, Tozé Cunha, Vera Bibi e Violeta D’ Ambrosio Assistência de encenação Daniel Moutinho e João Ferreira Música Francisco Madureira Figurinos Tânia Guerreiro Cenografia Carla Martinez Desenho de luz João Cachulo Materiais de arquivo e imagem João Paulo Serafim Apoio à investigação Daniel Moutinho e João Ferreira Produção Cláudia Teixeira e João Ferreira

Categorias: Teatro

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