“Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara.”
José Saramago, “O ano da morte de Ricardo Reis”.

Lisboa é tomada por uma chuva a preto e branco. É sobretudo esse plano cinzento, o guarda-chuva gigante no ecrã, que marca os primeiros minutos do filme de João Botelho baseado na obra de José Saramago, “O ano da morte de Ricardo Reis”. Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, médico, regressa do Brasil, em finais de dezembro de 1935. Saramago propõe-nos reconstituir o percurso deste alter ego do escritor. Que aconteceu a Ricardo Reis? Que vida teve? Se Pessoa não se encarregou de o matar, Saramago quis refazer o seu percurso… Não é a primeira vez que João Botelho adapta obras de autores portugueses: “Os maias” e “O livro do desassossego” são alguns exemplos. A marca de uma ação lenta e sem cor é traço comum a todos. João Botelho tem o seu ritmo no cinema. Um ritmo que talvez não seja o nosso, nem o da vida. E as personagens cumprem esse desiderato. Por vezes parecem tão estáticas como um quadro numa moldura. À exceção das personagens principais, Ricardo Reis e Fernando Pessoa, uma espécie de fantasma que com ele dialoga – como alguém que fala consigo mesmo e para uma parte de si mesmo, exteriorizada num heterónimo vivo- as personagens parecem não ter textura e profundidade. Lídia, a criada, e a rapariga, hóspede do hotel onde Ricardo Reis se instala, filha de um burguês conservador e salazarento, com a sua mão morta e doente, são duas mulheres cortejadas por aquele homem errante. Apesar da dose de emancipação de Lídia, mais atenta ao que se passa à volta e que estabelece, por via do seu irmão, perseguido, a ligação à ideia de uma classe trabalhadora contestatária, surgem na trama, sobretudo Marcenda como duas mulheres anuladas e submissas, enganadas e manipuladas por Ricardo Reis, que as manieta a seu bel prazer com assomos de uma falsa ideia de amor que cedo caduca. No argumento do filme e nas suas interpretações estas mulheres são entregues, não raras vezes, ora a uma quase figuração, ora a uma contracena similar à que esperaríamos de uma peça de teatro a lembrar o estilo de João Avilez. Talvez fizesse falta mais Lídia. Catarina Wallenstein esteve perto de romper a sua aurora de talento e subtileza e entrar em cena, mais palpável, mas talvez Botelho a quisesse  etérea apesar de terrena… Marcenda, na sua tocante fragilidade, que a interpretação de Victoria Guerra acompanha, percorre a trama até nos parecer lógico pensar que dentro da sua estufa protetora constrói sentimentos irreais e que, na verdade, talvez seja menos vítima que Lídia. E somos quase forçados a esquecê-la para escolher Lídia, a mulher do povo, a mulher (quase) real que mostra o seu amor na soma dos dias e em gestos concretos. São especialmente marcantes os diálogos sórdidos e satíricos entre Fernando pessoa (Luís Lima Barreto) e Ricardo Reis (Chico Diáz), que correspondem também, porventura, às melhores interpretações do filme. Diálogos que nos lembram a genialidade de Saramago e a mestria de João Botelho a fazer pontes discretas entre ironia, silêncio, imagem e retrato social. E talvez seja aquela chuva copiosa, aquela angústia de alma errante e vazia de Ricardo Reis, que atravessa desorientada e desapaixonadamente o frémito dos dias e neutraliza a luz de Lisboa – desmaiada nas valetas das ruas inundadas, dos jardins ou de um Adamastor pálido, afundada na perseguição pidesca, que suspira medo e opressão pelas esquinas – o segredo do filme. É naquela chuva que Botelho embrulha a inquirição kafkiana de um PIDE a Ricardo Reis, a visita a Fátima e o brilho desaparecido da capital de um país que fede a ditadura: o país de Fátima, Fado e Futebol. No filme encontramos os recantos sombrios de um Portugal estagnado que espera novas de Franco na vizinha Espanha.

Também não é a primeira vez que um realizador decide adaptar obras do Nobel. Só para dar alguns exemplos “O homem duplicado” foi adaptado por Dennis Villeneuve, e “Ensaio sobre a Cegueira”, realizado pelo brasileiro Fernando Meirelles comoveu Saramago.

Talvez não se traga entusiasmo de “O ano da morte de Ricardo Reis”. Na verdade, há uma angústia dormente que atravessa o filme e não nos larga, mas esse desassossego talvez surja de um encontro literário entre Pessoa e Saramago que não podemos desvalorizar. A chuva poética, que não sendo lisboeta parece uma interrupção temporal onde disparam todos os acontecimentos, bem podia ser uma ode a um Hitchcock com um suspense menos policial. Um filme inquietante que desperta a vontade de encontros com a obra para saborear diálogos e frases que não conseguimos memorizar no tempo de uma longa metragem.

“Diz-se que o tempo não pára, que nada lhe detém a incessante caminhada, é por estas mesmas e sempre repetidas palavras que se vai dizendo, e contudo não falta por aí quem se impaciente com a lentidão, vinte e quatro horas para fazer um dia, imagine-se, e chegando ao fim dele descobre-se que não valeu a pena, no dia seguinte torna a ser assim, mais valia que saltássemos por cima das semanas inúteis para vivermos uma só hora plena, um fulgurante minuto, se pode o fulgor durar tanto.”´
José Saramago, “O ano da Morte de Ricardo Reis”.

Categorias: Cinema

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