No Planeta do Zwag as crianças têm livre acesso à informação, são curiosas, incentivadas a ler, perguntar, aprender. No Planeta do Zwag não há lixo no chão mas há uma capacidade de reciclagem que não se limita à reciclagem de plástico, vidro, papel: a maior reciclagem deste planeta é a reciclagem de ideias de comunidade e de partilha.

Entramos pelas 16h30 no Teatro Lu.Ca em Belém: uma pequena sala, renovada, mas com uma história que fala por si – não só pelas placas de homenagem a grandes nomes do Teatro mas pelo edifício recuperado de quem não quer deixar morrer parte da nossa história.

O André espera-nos sentado no seu reduto imaginário, sendo transportado para o mundo que prefere. Nesse mundo há sumo de laranja, praia e futebol com amigos. Nós sentamo-nos: as crianças naturalmente agitadas, os adultos envoltos em sorriso que vão desde o orgulho familiar à projeção em cada uma das crianças da criança que em tempos fomos.

Mas o que será a Utopia para uma criança? Mas de que forma é que se consegue ensinar um conceito tão abstrato a uma criança? Estas foram duas das perguntas que me povoaram a mente antes mesmo de entrar.

A resposta foi simples: qualquer assunto, por mais complexo ou melindroso que possa parecer é de fácil perceção para as crianças; basta que a linguagem seja cuidada e que o adulto mostre à criança o que existe. Parece complicado à primeira vista mas não é: prova disso é o momento em que o André termina a apresentação, depois de nos apresentar o Zwag, o Barnabé, o Hércules, o Tareco mas, mais do que tudo, quando o André nos apresenta a Utopia e direciona para cada uma das crianças a pergunta: Qual é a tua utopia?

Desde a capacidade de transformar um feijoeiro em limoeiro do Matias, a criação de um hotel flutuante (não é flutuante na água mas no ar) da Matilde, da ideia do Joaquim de terminar as guerras com um avião de conversa ou ainda da curiosidade do mesmo Joaquim em saber quem era o Gandhi compreendemos que está efetivamente na mão das crianças a mudança que queremos ver no mundo. E nós, não somos mais do que a água e o sol que permite a cada um daqueles feijõezinhos que se cruzam connosco – os nossos filhos, os filhos dos nossos amigos e familiares – tornarem-se feijoeiros robustos, árvores de um fruto poderoso que é a ação.

Saí da conferência de alma lavada. E quando um dos muitos adultos fez aquela pergunta mais difícil: “E o que acontece quando a Utopia de um é a distopia do outro?” a contra pergunta do André ficou no ar: “E o Respeito?”

Devem estar a perguntar qual é a minha Utopia… Pois também eu – infelizmente, todas as que tenho encaro como desejos – pois a diferença entre estes e a utopia é que estes podem ser alcançáveis. Neste momento desejo que este espetáculo do André possa ser apresentado a escolas pelo país todo, que as crianças tenham acesso a informação cuidada e livre de manipulações mas mais que tudo, que todos os feijõezinhos floresçam e construam connosco o mundo em que vamos envelhecer.

André Leonor é licenciado em Filosofia e Psicologia, professor e autor de manuais escolares do ensino secundário. Está ligado ao trabalho de filosofia para crianças desde 2006. A sua ligação mais direta ao teatro surge através da Escola Profissional de Teatro de Cascais, onde é professor desde 2014. Produziu o texto e fez a sua interpretação na primeira Miniconferência para miúdas e miúdos curiosos no Teatro Maria Matos em maio de 2017.

Fotografia Alípio Padilha

Categorias: Conferência

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