Malfadadas é uma combinação sombria de tragédia. Vestidas de negro, as atrizes espiam a sua desgraça com um piano triste por cúmplice e um desenho de luz irrepreensível.

Que personagens caminham pelo palco?

A Medeia, de Eurípedes, essa mulher ambivalente, revoltada com a sua condição de esposa oprimida e que mata os filhos para se vingar e libertar.

A Blanche, a mulher sulista e amargurada de “Um elétrico chamado desejo” celebrizada, no cinema, por Vivian Leigh, em contracena com Marlon Brando, com base na peça de Tennesse Williams .

A Marta Tyrone, que enfrenta os dramas de uma família disfuncional em que o vício do consumo de drogas se tornou semente de conflito e dependência emocional.

A Mary, de “Jornada para a noite”, de Eugene O’ Neill, obra com a qual o dramaturgo estadunidense, Nobel da literatura, ganhou um Prémio Pulitzer.

E de Eurídice, a apaixonada almadiçoada, do “Mito de Orpheu”.

Se aquele piano de Filipe Raposo marca os momentos mais tocantes e inspirados do espetáculo não é muito mais o que trazemos. Com sorte uma frase solta, a entrada das manas Ana no palco, lado a lado, como dois corpos de uma só cabeça dividida, um piano a ser arrastado pelas atrizes, porventura aquele frasco de uma qualquer bebida alcoólica a regar o corpo.

Partida, separação, trilhos de amor desencantado, perda e morte, sem salvação, espiam todo o espetáculo, com o fado como testemunha. E não é esta tapeçaria de textos, marcadamente distintos, ainda que porventura unos nos temas que convocam, que cria desapego, é o tal fio condutor que não se encontra. De resto, mesmo para quem reconheça no fado uma espécie de força redentora (e é com enlevo que canta Aldina Duarte), talvez não chegue. Falta uma ligação qualquer neste percurso de fatalidade da desgraça.

Não se pode dizer que as interpretações não sejam limpas e, por vezes, certeiramente emotivas, e também é certo que a atriz Isabel Abreu merece um público atento. A questão é que não conseguimos percorrer os caminhos do espetáculo sem nos perdermos. O Miguel Loureiro habituou-nos a fundadas expectativas e há textos muito bonitos que merecem ser recuperados depois do ‘black out’ inesperado… E talvez seja este o desafio, o de voltarmos a estes textos, belíssimos, e encontrarmos o trilho que quisermos para estas “Malfadadas”, em cena no Teatro D. Maria II.

Entrevista de Miguel Loureiro ao Coffeepaste, a propósito de Malfadadas

Malfadadas, de Aldina Duarte, Filipe Raposo, Isabel Abreu e Miguel Loureiro
20 – 28 jul 2019
Teatro Nacional D Maria II
Lisboa
criação Aldina Duarte, Filipe Raposo, Isabel Abreu e Miguel Loureiro
texto Miguel Loureiro, com excertos de Sophia de Mello Beyner, Eurípedes, Eugene O’Neill, Tennessee Williams
com Aldina Duarte, Filipe Raposo, Isabel Abreu
música original Filipe Raposo
figurinos Ricardo Preto
desenho de luz Daniel Worm d’Assumpção
desenho de som Pedro Costa
coordenação de produção Manuel Poças
coprodução TNDM II, Pueblozito
apoio Sociedade Portuguesa de Autores
Foto: Diário de Notícias
Categorias: Teatro

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