Não tenho saudades do teatro… o teatro é mau, é feio.. deviam fazer-se manifestos contra o teatro, o bom, o mau… toda a gente devia deixar de fazer teatro. o teatro está ultrapassado, passou da validade e cheira mal de bolor….o teatro dá azia e põe as pessoas a dizer mentiras.. o teatro dói no peito e faz crescer pêlos nas pernas. O teatro faz vomitar sapos do estômago – sapos com um só olho. Eu não gosto do teatro nem da teatra. deviam queimar as tábuas e no meio do fogo dizer bem alto: BOA SORTE, BOA SORTE, SORTE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Ninguém tem saudades do papão, nem do ferrão, nem do monstro das bolachas. então porque raio eu deveria ter saudades do teatro? O teatro não dá energia, não faz bem ao cabelo nem às unhas – não é gelatina, O teatro não faz o cabelo crescer mais depressa, não serve de salamandra no Inverno. Ouvi dizer no outro dia que o teatro cria acne nos mais novos e bexigas inflamadas nos mais velhos – TUDO DE FRALDA AO TEATRO!!! Olhem que o teatro também não cura o cancro. O teatro é velho e sabe a mofo, e está cheio de notícias que nunca aconteceram.

Estou chateada com o teatro, uma vez chamou-me puta e eu mandei-o foder. Nunca mais me falou o teatro, embora às vezes me mande sms – eu desligo-lhe sempre o telefone na cara. O teatro liga-me para casa e pergunta-me “Onde é que estás?” e eu não lhe respondo com medo que ele me encontre. O teatro deu-me uns belos quistos nas pregas vocais e quando eu o abandonei mandou que se me formassem pregas na barriga, nas coxas e no pescoço…O cabrão do teatro é mau que dói.

O teatro faz chichi na cama.

O teatro faz chichi sentado no penico.

O teatro chucha no dedo para adormecer.

O teatro masturba-se até ficar cego.

O teatro tem calos na boca.

O teatro cheira mal dos pés e dos calos.

O teatro nunca se cala – “blá, blá, blá, blá, blá, blá!” Ó teatro cala-te lá que já ninguém te suporta! O teatro não dorme de noite e atormenta os teatreiros mal formados e mal fumados e mal fodidos e mal nutridos.

Já vos disse que o teatro é mau?

O teatro escuta atrás das portas e depois vai contar os nossos segredos a toda a gente. A TODA A GENTE!!! O teatro devia viver na Etiópia e ter uma barriga inflamada de fome. Devia ser mordido pela mosca tsé-tsé e dormir para sempre. E o príncipe encantado do teatro devia ficar sem pilhas no GPS. Os sete anões do teatro deviam mijar-lhe em cima , que o teatro não merece nada de bom. “Tudo de bom!” diz o teatro por de trás das máscaras – sempre escondido, o velho teatro nunca dá a cara. É impossível conhecer-se o teatro, anda sempre de fininho, todo torto do vinho. O teatro não bebe vinho, fez um voto de castidade “até que a morte vos separe” e seguiu o seu caminho, sozinho.

O teatro baba-se todo e cospe para cima do público. O público nunca devia ir ao teatro. É verdade! Alguma vez o teatro foi ao público? De boa fé? – bem me parecia. O teatro trai, esconde, mente, está sempre a fugir. Houve uma vez que o teatro engravidou uma actriz e nunca assumiu o filho. O teatro não sabe o que diz – o teatro nem sabe falar. Brecht para aqui, Artaud para acolá – quem não tem colhões saca dos galões!!! O teatro é um cliché perneta sem carta de lambreta.

Eu não gosto do teatro – só por isso é que não faço. Não porque tenha medo ou me sinta pequena. Não é porque me tenha perdido e não suporte a ideia de não me encontrar. Não é porque tenha deixado de ler, de escrever, de sentir, de chorar. O teatro quer-me infeliz e eu não tenho tempo para devaneios. O teatro não dá na televisão e eu sou demasiado preguiçosa para abrir a porta. O teatro não vem a correr e me acorda a meio da noite – isso eram outros carnavais, minha filha! O teatro fugiu-me dos pés, caiu-me da sanita, escorregou-me das mãos e por isso tudo eu nunca lhe vou perdoar!!!!!!!!!!!

Sem outro assunto de momento, despeço-me cordialmente!

Ana Carina Paulino

(este texto está também publicado em https://anacarinapaulino.wordpress.com)

Categorias: Reflexões Teatro

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