Em tempos de isolamento todos nos redescobrimos, reinventamos e tentamos dar algum sentido ao que se passa connosco, com o mundo.

Temos assistido aos esforços da comunidade artística na garantia dos direitos que deviam ser inalienáveis e vamos todos fazendo o esforço por manter esta comunidade viva, a mexer (às vezes sem sabermos bem a que preço o estamos a fazer).

A Culturgest dinamiza semanalmente um grupo de jovens dos 17 aos 22 anos: Entrar. Na descrição da página encontramos: “Entrar é um programa de partilha coletiva, uma combinação de diversidades, um não-lugar vasto e rico que surge espontaneamente quando cruzamos os lugares que somos.”

Nestes tempos de distância, o grupo Entrar transformou-se; transformou a ausência numa não-presença física e está a manter os encontros via Zoom. Hoje fui surpreendida com um convite para participar num destes encontros: eu, que se formos analisar em termos de idade represento aproximadamente 2 jovens dentro desta faixa etária. Pensei em não ir, seria uma invasora. Como se sentiria a Tânia de 18 anos a ver um crescido a entrar nas suas conversas? Mas como a curiosidade é maior que esta dúvida e como o convite me chegou de duas pessoas muito estimadas fui.

Acabou há dois minutos. E estou com todos os sentidos ativos e pronta a debitar.

Recebemos um email de confirmação com uma apresentação do grupo e com as diretrizes do tema da semana. Esta semana o tema era: #1 Tempo Para Escutar

E durante 2 horas escutei. O exercício para mim até foi mais engraçado de fazer: E que tal Tânia, o tempo para ficares calada? Escuta. Usa o tempo para ouvir o outro, principalmente, o outro que no mundo dito normal não irias ter tempo de escutar.

A conversa que começaria por tocar no tema escuta, rapidamente passou para o tema espera; para a capacidade de não responder simplesmente porque existe a pergunta; que existem perguntas que não necessitam respostas. Que as respostas não são mais certas quanto mais imediatas.

A inquietação, as ansiedades. O bom e o mau; e porque é que associamos desconforto a mau ou a bom? Porque temos a necessidade de fazer algo que útil quando na maior parte do tempo pode até ser mais útil esperar?

Viver numa cultura que busca os resultados, que olha pouco aos meios para atingir fins tem também a capacidade de nos retirar o tempo que precisamos e que devíamos ter para pensar. Mas quem ganha o quê se não pensarmos? Ou, digo eu esta, o que perdemos nós, como sociedade, por incentivar este frenesim e não deixarmos as ideias, as vontades abrandarem para, aí sim, se fazer algo que nos faça a todos ganhar?

E a Tânia de quase 38 anos escuta, sentada, recostada na cadeira onde pouco escuta, onde pouco abranda. Onde é necessário fazer, aqui e agora e resolver aqui e agora. E a Tânia sente, também ela, que a verdadeira saída está no equilíbrio entre o mundo da escuta e o mundo da fala. Tenho sentido falta de muita coisa durante esta quarentena mas o que mais me falta é o toque, o abraço. As minhas pessoas. Em tom de brincadeira, quase sinto a falta também do excesso de pessoas nos transportes públicos. De me queixar de haver gente a mais em todos os jardins quando queria sossego. E entro num jardim assim, repleto de gente que me dá este abraço, ainda que virtual.

Senti durante esta conversa a que assisti que abraçava cada um dos participantes. E sinto que a cada um deles gostava de dizer uma palavra.

Ao P. – porque a meio da conversa comenta que com as respostas todas achou a sua pergunta estúpida porque óbvia – não! Nenhuma pergunta é estúpida e, repara, que as respostas não teriam surgido sem a tua pergunta.

O H. disse que às vezes a resposta ao desconforto está na procura da resposta. Sim, e cada desafio que conquistas é como se desses um pontapé na meta para mais longe, para continuar essa maratona de procura.

A K. que energia, senhores! Ficava um dia inteiro a ouvi-la, a beber cada palavra.

A M. que parece uma fiadeira de palavras; agarra numa ponta de um novelo, na roca do seu pensamento e fia uma nova pergunta.

A J. por trazer a comunidade para a escuta.

A S. por nos dar a resposta mais simples a tudo, contudo a mais complicada de aplicar diariamente; sim, o amor é o maior amuleto que transportamos.

Estes são só alguns dos muitos que lá estavam e são eles, todos, que me fazem ter esperança nos próximos anos. Que me fazem sentir que uma quarentena, um estado de emergência é a condição que me permite chegar a estes tão próximos e tão distantes ao mesmo tempo.

A A. partilhou este excerto de uma entrevista do José Mario Branco à Revista Sábado em Dezembro de 2018: “Tenho uma confiança enorme de que a Humanidade vai continuar falando de maneira abstrata, a resolver os seus problemas e a avançar no sentido da beleza, do amor, da justiça… Daqueles valores mais gerais a que nos agarramos muito principalmente nestes períodos de vazio. Mas estou convencido, parece-me que vai haver muita dor, muito sofrimento, muito horror nisto tudo, para chegar a um mundo melhor.”

Será um mundo melhor? Um mundo diferente sim; sejamos nós as melhores versões de nós próprios para esse mundo. Os jovens do grupo Entrar vão ser.

Foto de Patrícia Blázquez

Página do projecto na Culturgest

Categorias: Reflexões

One comment

Grupo Entrar - Culturgest

  1. Adorei o que li. Deve ser um grupo fantástico com cultura e uma energia que vem da alma. Eles têm a chave para viver a quarentena : de dentro para fora mas partilhando com a comunidade! As Verdades estão um patamar acima. Por isso, o que eles defendem é transversal a qualquer religião, cor política, cor da pele. Nasce da Fonte que brota em cada um de nós Adoraria assistir mas os anos já são muitos. Parabéns e continuem. Antónia Pedrão

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