Vemos um grupo – pessoas a aquecer o corpo enquanto nós, os do lado de cá, vamos aquecendo a alma: ir ao teatro ao Domingo devia ser uma prática obrigatória – nada melhor do que observar, do que sentir para nos preparar para uma semana de trabalho.

Vendo o figurino deste grupo e vendo o papel do “líder” apresentado surgem na minha memória reminiscências da série de época “Fame” mas ao mesmo tempo parece que é um pouco mais que isso. Vemos uma construção que parte das indicações dadas pelo “maestro” do corpo mas ao mesmo tempo vemos as particularidades de cada um dos participantes – vemos que existe sempre o trabalho da criação mas, ao mesmo tempo existe o trabalho que vem de dentro – do que já somos antes de fazer o que quer que seja.

Nesse momento entra um novo grupo em palco – somos apresentados a uma dicotomia – do lado já existente e com o qual temos contactado desde o inicio fica a leveza – o movimento que nos traz este novo grupo apela a uma maior rigidez, a uma soturnidade. Prova disso são, igualmente, os intérpretes apresentados: em tons escuros, cinzentos, pretos e sem sorrisos.

Passamos então ao cerne da peça: a dicotomia existente entre os dois grupos vai dar azo a uma espécie de duelo – em que o movimento é, a meu ver, a arma que está a uso. Vemos a repetição do movimento bem como a sua adaptação – vemos igualmente a forma como esse movimento gera a resposta no grupo oposto mas, mais que tudo, vemos em certa medida a forma como o movimento se começa a cruzar, como cada interprete se apresenta como um pano absorvente e se deixa embeber do que vê no outro.

A peça é pontuada de alguns momentos de tensão e de alguns momentos de comédia mas são a música, a luz e a cenografia que nos elevam e nos fazem apreciar o próprio movimento: Sinto-me como que numa matrioska de emoções – porque o movimento de cada grupo é liderado por alguém que ritmadamente impõe a velocidade da peça; mas ao mesmo tempo, é também esse alguém liderado pela envolvência. E nós, meros espectadores, ficamos a olhar (ainda que por algumas vezes, tenha dado comigo a replicar alguns dos movimentos na cadeira).

De entre todos os intérpretes temos ainda os que, como nós, se apresentam como espectadores – a única diferença é estarem em cima do palco. Quase podemos dizer que é uma questão de perspectiva. E não é isso talvez o que o Victor Hugo pretende transmitir? Somos todos actores, somos todos intérpretes nesta tela que é a vida e vamos, a pouco e pouco, construindo os nossos passos com os restos das memórias e das imagens que guardamos e repetimos metodicamente. Procuramos todos um exemplo, procuramos todos os passos que queremos seguir por isso, não devemos nós próprios ser os exemplos que queremos ver nos outros?

Drama, de Victor Hugo Pontes
15 a 17 março 2019
São Luiz Teatro Municipal
Lisboa

DIREÇÃO E COREOGRAFIA Victor Hugo Pontes
CENOGRAFIA F. Ribeiro
DESENHO DE LUZ E DIREÇÃO TÉCNICA Wilma Moutinho
MÚSICA ORIGINAL Rui Lima e Sérgio Martins
PIANISTA Joana Gama
FIGURINOS Cristina Cunha e Victor Hugo Pontes
INTERPRETAÇÃO Ángela Diaz Quintela, Daniela Cruz, Dinis Santos, Félix Lozano, Pedro Frias, Valter Fernandes, Vera Santos e participantes da comunidade local
APOIO DRAMATÚRGICO Madalena Alfaia
ASSISTENTE DE DIREÇÃO João Santiago
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO Joana Ventura
ASSISTENTE DE PRODUÇÃOMariana Lourenço
ESTAGIÁRIA Liliana Oliveira
APOIO RESIDÊNCIA ARTÍSTICA Circolando e Teatro Nacional São João
COPRODUÇÃO Nome Próprio, Centro Cultural Vila Flor, Teatro Municipal do Porto – Rivoli.Campo Alegre e São Luiz Teatro Municipal / A Nome Próprio tem o apoio da República Portuguesa – Ministério da Cultura / Direção-Geral das Artes e é uma estrutura residente no Teatro Campo Alegre, no âmbito do programa Teatro em Campo Aberto

Categorias: Dança

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