Entrar num teatro com o peso do Teatro D. Maria II é, por si só, um encher de alma.

Vemos normalmente o teatro como sala de espectáculo; como espaço físico estanque. A verdade é que o teatro é muito mais do que isso.

Com o Gustavo somos convidados a quebrar padrões: Entramos para a bilheteira, criamos uma clareira humana e ficamos a aguardar… Estamos tão habituados a ser “carneiros” na multidão que qualquer coisa que saia fora do costume se torna estranha, inesperada.

Saímos do teatro, o teatro abre-se ao povo – turistas curiosos param para ver o que se passa. Seguimos os artistas e começa a imersão no espaço mágico.

Entre escadas, salas, salinhas, corredores, pianos, impressoras e até extintores percorremos os caminhos percorridos pela Amélia Rey Colaço mas, mais do que tudo, fazemo-lo pelos olhos e pela mão do Gustavo.

De entre tudo o que de surpresa acontece assistimos a um mikado humano, a uma festa de anos ao jeito da festa de desaniversário do chapeleiro maluco da Alice no País das Maravilhas e descemos.

Passamos pela sala de costura onde a querida Mestre Teresa Louro me ensinou durante uns meses a fazer camisas, vestidos e saias e, ao chegar à escadaria que todos os sábados subia e descia sou invadida por uma nostalgia de infância: de repente, com o sopro de uma brisa, somos todos crianças, a olhar para o vão da escada e a ser supreendidos por confettis e músicas que tinhamos guardadas cá atrás, na memória.

Descer estas escadas foi uma espécie de revisita ao pátio da minha avó: os vizinhos a comentar as notícias, as zangas, os recados.

Somos levados novamente ao exterior onde os actores se misturam com as típicas vendedeiras do Largo de S. Domingos e acontece um dos momentos mais lindos dos meus últimos anos: cantando músicas das suas terras notamos que somos remetidos para essa noção de saudade, somos prova e testemunha que a nossa terra é esta: uma terra onde não somos mais do que actores e espectadores, uma terra em que se sobe, se desce, se escuta, se sorri.

Não, não deixei cair as expectativas e tive sempre cuidado com os degraus – não é esta uma fantástica apendizagem para levar para a vida?

Entrevista de Gustavo Ciríaco ao Coffeepaste

Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos, de Gustavo Ciríaco
(Alkantara Festival)
29 – 31 maio 2018
Teatro Nacional D Maria II
Lisboa

Concepção e Direção Artística Gustavo Ciríaco
Assistência de Direção e Dramaturgia Catalina Lescano
Intérpretes e Colaboradores Ana Trincão, André Loubet, Diana Narciso, Gonçalo Egito, Gustavo Ciríaco, João Estima, João Grosso, José Neves, Lúcia Maria, Manuel Coelho, Paula Mora, Rita Delgado, Rodrigo Andreolli, Sara Inês Gigante, Sara Zita Correia, Tiago Barbosa
Participação especial Carla Gomes
Figurinos Sara Zita Correia
Cenografia Sara Vieira Marques
Desenho de Som Bruno Humberto
Desenho de Luz Tomás Ribas
Direção de Produção e Comunicação Jesse James
Produção Executiva Catalina Lescano
Coprodução Teatro Nacional Dona Maria II, Alkantara, 23 Milhas – Ílhavo, Walk&Talk – Festival de Artes
Apoio à Residência Teatro Micaelense, Espaço do Tempo, Devir-Capa
Residência de Investigação Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, através do programa Artista em Residência

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Cortado por todos os lados, aberto por todos os cantos, de Gustavo Ciríaco

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