Colleen tem vindo a explorar novas sonoridades a cada disco — e o mais recente A Flame My Love, A Frequency não é excepção. O pretexto para o concerto da passada quinta-feira na Galeria Zé dos Bois foi precisamente a apresentação do novo álbum, que dominou o alinhamento quase exclusivamente.

O disco arranca com November — o mês em que Cécile Schott (o verdadeiro nome da artista francesa) se deslocou a França para visitar um familiar doente e acabou por fazer uma paragem em Paris, à sua antiga casa. Horas mais tarde, e não muito longe, aconteceriam os ataques terroristas em cafés, restaurantes e no Bataclan. Fixada na morte — na sua, na das pessoas que ama, na de estranhos, como a própria escreveu — começou a compor o novo disco como uma forma de terapia.

No último concerto por Lisboa, também na ZDB, quando veio apresentar Captain of None, Colleen tinha em palco intrumentos de percussão e uma viola de gamba. Mas desta vez o cenário era mais despido e apenas havia uma mesa com sintetizadores analógicos — e cabos, dezenas de cabos que Cécile liga e desliga entre músicas. Em vez de pautas, folheia umas cábulas em tamanho grande com a posição exacta de cada botão (“é tudo analógico, basta estar um bocado ao lado e o som fica completamente diferente”, desculpa-se).

O concerto segue o alinhamento do disco, com o pulsar electrónico das novas músicas a hipnotizar toda a sala; as melodias, apesar de introspectivas, capazes de encher o espaço.

Já no encore, Colleen toca o único tema da noite que não pertence ao novo disco. Nem pertence à própria — é uma versão de The Night of the Hunter, música do filme de 1955 com o mesmo nome. Algo que Colleen tinha já tocado também no último concerto cá mas, adverte, é bem diferente da que tocou nessa altura. “Na minha opinião, isso é uma coisa boa”, diz, antes de pousar os dedos no sintetizador e de voltar a fazer soar o pulsar quase aquático que marca esta sua nova fase.

O concerto termina com mais uma repetição. Colleen volta a Summer Night (Bat Song), mas agora na sua “versão feliz”, como a própria a descreve. E aproveita para contar como nasceu a canção: num fim de tarde em casa dos pais, enquanto observava pássaros, há um morcego que se parece dirigir em direcção à janela aberta onde está mas, no último instante, volta para trás em direcção ao jardim.

Colleen cobiça esta capacidade de evitar o perigo e o desconhecido (“Be like the bat that nearly flew into my room”, canta). Se a tivesse, talvez não tivéssemos o prazer de ver um concerto tão deliciosamente vulnerável e melancólico.

7 dezembro 2017
Galeria Zé dos Bois
Lisboa

Categorias: Música

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