Baixam as luzes e os dois actores entram em cena, atarefados, a ligar e a esticar os cabos que sustentam uma estrutura circular com dois assentos no meio, que ocupa o centro do palco, uma concepção de Henrique Ralheta. Da boa colocação e tensão dos cabos resulta o nível de conforto que os performers vão ter durante o espectáculo. Depois, sentam-se perto um do outro, como que à beira de um beijo, e imóveis permanecem durante toda a performance.

“Pratica-se a endurance da imobilidade”, diz Cláudio da Silva em declarações à revista Visão. E é disso que se trata. De um exercício de resistência, como são todas as relações longas. Têm bons e maus momentos, altos e baixos, mas são uma prova de longo curso.

Lígia Soares, a encenadora e autora do texto, retrata a relação entre uma mulher e um homem, a Cinderela e o Príncipe. Refere que  “o pessimismo que está presente na peça tem também que ver com uma certa abertura para se questionar coisas. A possibilidade de separação é também um exercício de liberdade”. Ao longo da performance, assistimos a vários momentos, que alternam entre o carinhoso e o furioso, o irónico e o cómico.

Todos, ou quase todos, já vivemos uma relação. E aposto que nem tudo foram sempre rosas e sorrisos. Este retrato de um casal da classe média reflete, com a devida camada artística, o que se passa em muitos casais que conhecemos.

Cláudio da Silva e Crista Alfaiate são os actores que dão voz ao casal. Fazem-no de forma irrepreensível, nesse exercício de resistência, tanto física, por terem de se manter imóveis numa posição desconfortável, como emocional, dados os altos e baixos que a relação retratada atravessa.

Lígia Soares já nos habituou nas suas criações a sermos interpelados e envolvidos enquanto público. Noutras terá sido mais literal. Mas nesta “Cinderela” não conseguimos evitar pensar nas nossas próprias relações, e revermo-nos em partes (grandes ou pequenas) do que testemunhamos.

Cinderela, de Lígia Soares
19-24 junho
São Luiz Teatro Municipal
Lisboa

Direção e texto Lígia Soares Cocriação e interpretação Cláudio da Silva e Crista Alfaiate Direção Musical e Apoio à Dramaturgia Mariana Ricardo Concepção Plástica Henrique Ralheta Luz Rui Monteiro Assistência de Ensaios Mia Tomé Produção Máquina Agradável  Apoios O Espaço do Tempo e Polo Cultural das Gaivotas (CML)
Agradecimentos Biblioteca Municipal de Marvila
Coprodução: Teatro Aveirense, Teatro Municipal do Porto. Rivoli-Campo Alegre, Teatro Viriato e São Luiz Teatro Municipal

Categorias: Teatro

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Cinderela, de Lígia Soares

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