“Cada pessoa é uma biblioteca” ouvi eu dizer, há uns dias atrás a uma psiquiatra (cujo nome não me recordo) numa sessão sobre leitura promovida pela Bertrand, a partir da inspiração que é Alberto Manguel, literário argentino que, em criança, lia em voz alta para Jorge Luís Borges, depois deste último ter cegado. Manguel fala também do indivíduo enquanto biblioteca, que se constrói a partir da “memória da memória da memória. Porque, de cada vez que lembramos algo que acreditamos lembrar, estamos a lembrar-nos de uma lembrança que é, geralmente, uma lembrança de uma lembrança. Não sabemos onde começam as lembranças.” Este “palimpsesto”, como lhe chama Manguel, é construído pelo que fica do que lemos, às vezes, de um Tolstói pode ficar “apenas” uma frase, uma personagem, um cenário, mas nunca as 800 páginas de um Guerra e paz ou de uma Anna Karenina. Tenho lido sobre memórias, é um tema que me interessa muito, e Julia Shaw, uma psicóloga americana que estuda (e aplica na área criminal) a questão das falsas memórias vai ao encontro do que Manguel fala: não sabemos de onde nos vêm as memórias, de um livro guardamos apenas um pouco e quando o lembramos já é sobre a memória dessa lembrança e não da memória actual. Torna-se uma memória falsa, alterada por diversos estímulos, desde a fase emocional em que nos encontrávamos no momento da leitura, à associação de discussões sobre a mesma obra, ou até à deturpação dessa memória através de consequentes leituras que tenhamos feito posteriormente. Cada leitor é, em si mesmo, um re-escritor, no sentido em que, ao ler um livro, o reconta, mesmo que seja para si próprio, à luz da bela deturpação que faz das palavras que incorpora.

Ao longo da minha vivência enquanto leitora (mais ou menos ávida, porque há momentos em que os livros que acumulo num Tsundoku interminável, me causam urticária) não páro de me confrontar com esta ideia de um Ser-Biblioteca. Harold Bloom, em “A Angústia da Influência” apresenta-nos os termos de “misreading” e de “misinterpretation” que encerram em si próprios a problemática da tradução (muitos tradutores optaram por mantê-los na língua original por os considerarem intraduzíveis, demasiado próprios no seu sentido para serem traduzidos – como a nossa eterna “saudade”???) . Estes termos de que Bloom nos fala, representam isso mesmo, a leitura errónea, a bela deturpação que os nossos sentidos, vivências, lembranças e valores fazem daquilo que lemos. O Movimento Homeostético, que aparece nas Belas Artes no ano de 1982 através de manifestações literárias, visuais e performativas dos alunos Ivo, Manuel João Vieira, Pedro Portugal, Pedro Proença, Xana e, mais tarde Fernando Brito, apelida este acto de “canibalismo”, discorre, em manifestos intermináveis sobre a ideia de pastiche.

No entanto, tanto Bloom (na literatura), quanto a Homeostética (nas artes visuais), confrontam este tema com o fantasma da influência na criação artística e o que estou a tentar estimular aqui, inspirada pela sessão a que assisti na Bertrand, é a questão do ponto de vista do leitor que não exerce a literatura para além do auto-conhecimento, da sua formação individual ou apenas pelo “simples” acto de deleite, seja qual for o género que mais lhe interesse. A afirmação de que “Cada pessoa é uma biblioteca”, que encerra em si uma beleza incomensurável, transporta essa beleza para cada indivíduo, leitor mais ou menos ávido, até mesmo ao não leitor, que não deixa de transportar em si este palimpsesto de memórias e de lembranças, estimuladas por outras influências, por outras experiências. E, com tudo isto, resta-nos apenas criar ainda mais beleza com a beleza que transbordamos em nós, partilhando-a com a beleza daqueles que se cruzam no nosso caminho. E, tal como qualquer biblioteca, física ou emocional, essa beleza não tem fim!

Foto: © Alina Santos Paulino

Categorias: Reflexões

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