Há uns meses ouvia que os clássicos são clássicos enquanto tiverem algo para dizer e Anna Karénina tem dado que falar desde a sua publicação. Recentemente dois autores portugueses, Afonso Cruz e Tiago Rodrigues, basearam-se nesta que é uma das personagens femininas mais importantes da história da literatura.

No romance de Afonso Cruz descobrimos um pai que se dirige à filha para lhe contar a sua história, justificando as suas atitudes com base nas marcas da educação rígida do seu pai, contrastando com a sensibilidade que a sua mãe conseguira despertar no seu ser imperfeito, como se caracteriza. Já Tiago Rodrigues escreve um texto teatral que coloca a personagem central da sua história como um espelho da história de Anna Karénina que decide seguir os passos duros em busca da sua felicidade.

O romance de Tolstoi começa com a célebre frase: “Todas as famílias felizes se parecem, todas as famílias infelizes são infelizes à sua maneira.” Afonso Cruz inicia o seu “Princípio de Karenina” desta forma: “Eu seria muito infeliz num mundo feliz. Ela seria feliz em qualquer mundo.” Este homem, este marido, este amante e este pai que Afonso Cruz nos apresenta, encerra no seu caminho uma verdadeira visão do amor, daquilo que julgamos ser o amor e daquilo que sabemos que é o amor, do ponto de vista de que só descobrimos que o amor que sentimos não é amor quando encontramos alguém que, inevitavelmente, nos faz sair da nossa zona de conforto para nos dar a conhecer uma beleza até então desconhecida. A personagem de Isabel, de Tiago Rodrigues, faz exactamente a mesma coisa, através de um bonito elogio à orelha: “Para concluirmos que uma determinada orelha não é a orelha da nossa vida, temos de já ter encontrado a orelha com que queremos envelhecer, a orelha que continuaremos a amar quando for povoada por um tufo de pêlos e estender o seu lóbulo como uma manta de carne.”

A partir do momento em que, no livro de Afonso Cruz, este pai conhece a mãe da sua filha, começa a questionar a noção de felicidade, através de descrições da beleza humilde e inocente do fruto do seu amor, amor esse que ele julgava ter consumado no seio do seu casamento. Este homem encontrou o amor da sua vida em alguém e de uma forma que o faz colocar em causa todos os valores transmitidos pelo seu pai, homem ausente, distante e rígido. A forma como Afonso Cruz descreve o amor entre o pai e a mãe desta filha de um amor adúltero, quase que nos sugere que Marguerite Duras poderia ter escrito a mesma história do ponto de vista da mulher, mãe ou filha. Uma história de amor fugaz e impossível, uma história cheia de distâncias emocionais e físicas onde a impotência e o “tarde de mais” imperam.

Tal como no romance de Tolstoi, o adultério é figura crucial em ambas as obras. No caso de “Princípio de Karenina” esse adultério assemelha-se à história secundária do original, protagonizada por Doli e Stiva que, apesar dele existir, ambos continuam juntos sem discutir o assunto que acaba por assombrá-los para sempre. Já no caso de “Como Ela Morre” de Tiago Rodrigues, a separação é inevitável: “E agora, neste momento, quando começamos a suspeitar que a orelha ao nosso lado não é essa orelha, temos de ir até ao fim”, aproximando este casal à história de Anna com os seus Alexei (marido e amante).

Então e a (in)felicidade? Em ambos os casos a felicidade, ou falta dela, está directamente relacionada com o amor. Afonso Cruz, sustentado por Ursula K. Le Guin, defende a falsidade da frase inicial de Tolstoi: “Todas as famílias felizes se parecem, todas as famílias infelizes são infelizes à sua maneira.”, já Tiago Rodrigues parece, sem se alongar directamente nessa matéria, concordar com a missiva.

É óbvio que a felicidade não é um estado linear por excelência: há no ser humano um constante desequilíbrio que faz com que se sinta infeliz, estado esse que lhe permite as hipóteses de o aceitar ou de reagir contra ele. Zygmunt Bauman dissertou, mais ou menos, sobre isto na sua teoria do amor líquido que discorre sobre a fragilidade dos laços humanos e que coloca, também ele, o amor como cerne da felicidade, questionando a veracidade do termo do ponto de vista dessa fragilidade que aponta às relações do nosso tempo. Pode considerar-se uma questão pertinente e verdadeira, no entanto, é necessário ir mais além. Serão as relações dos nossos dias, frágeis, portanto líquidas, mais infelizes do que as relações de antigamente, duradouras, portanto sólidas? Ou seja, quem terá sido mais feliz, o pai que Afonso Cruz descreve, que deixou fugir o amor da sua vida, cumprindo assim o voto matrimonial que jurou à mulher, mesmo que cada beijo desse matrimónio replicasse nele a frase: “Ela não presta”, ou a personagem de Isabel, de Tiago Rodrigues que, assim que descobre que a orelha com quem acorda todos os dias não é a orelha que ama e decide correr atrás da orelha que a faz palpitar? Como Anna que, apesar de tudo, correu atrás de Vronski. E será que a afirmação de Tolstoi é verdadeira ou falsa? Sob o ponto de vista das relações amorosas observemos uma reunião de amigas: se, numa mesa de quatro, uma delas está infeliz, invariavelmente essa destacar-se-á. A conversa girará em torno da sua infelicidade e não da felicidade das outras. E isso não só se sente dentro, como se sente de fora. A pessoa infeliz sobressai no seio de uma reunião de pessoas felizes, marca o tom dessa mesma reunião. Cada infelicidade é própria porque, cada pessoa infeliz tende a relativizar os problemas de outros através da exaltação do seu, sempre sem se colocar em perspectiva com o mundo. Porque ninguém sofre como ela, porque ninguém sente como ela. Em torno de uma pessoa infeliz, ninguém quer exibir a sua felicidade. Todas as pessoas infelizes reagem de formas diferentes, tal como nos provam as personagens de Afonso Cruz e Tiago Rodrigues. Há as que reagem, há as que se deixam ficar, há as que escondem, as que mentem, as que oprimem a felicidade dos outros, as que imprimem, ou tentam imprimir, na felicidade dos outros a sua própria frustração. Há-as de todas as formas e feitios. Enquanto que as pessoas felizes estão bem, escondendo ou não essa felicidade.

O que seria da nossa literatura se todas as infelicidades fossem iguais? O que seria da literatura se a infelicidade das personagens de Tolstoi fosse igual às das personagens de Duras, de Eurípides, de Kundera, de Eça? Não é a infelicidade individual e diferenciada que traça o caminho escarpado que cada um de nós percorre em busca do estado “ser feliz”?

Categorias: Livros

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