“First the body. No. First the place. No. First both. Now either. Now the other”*. Primeiro o corpo, não, primeiro o lugar. Não, ambos, ou nenhum, ao mesmo tempo. Agora também, o outro. O que é mesmo? Que existência é esta? Em tempo de um certo sentimento nihilista, o período de confinamento de uma certa batalha viral serviu de incubadora a alguns projectos que se fizeram nascer, contra todas as adversidades.

Um dos seres que se deu à luz é uma criatura digna da criptozoologia: um ser estranho, composto de partes diferentes, de diversos “animais dramático-performativos”. É um corpo bizarro, de aspecto incrível, que pertence ao universo do teatro, do cinema e da performance virtual, sendo tudo ao mesmo tempo, e sem ser apenas uma em particular. Um ser biónico, composto de humanos e de máquinas, de mito e de tragédia: assim se apresenta O Corpo de Helena, a Quimera do Teatro Nacional 21.

Se considerarmos os autores deste animal dramático, e o vocabulário que utilizam para se referirem à sua criação, o recente espectáculo do Teatro Nacional 21 consta ser um espectáculo de teatro que esteve “em cena” – designação dos próprios – nos dias 26, 27 e 28 de Junho na página de Facebook do colectivo.  Assim, O Corpo de Helena, cujo título sublinha a materialidade do corpo, que se afirma “tragédia grega na urgência contemporânea do dispositivo on-line”, vive de uma ficção cuja matéria é apenas aquela que se vê entre dispositivos, e não aquela que se suporia presente.

A questão da presença em teatro tem sido cada vez mais diluída, resolvida, transformada e misturada com outro tipo de presenças, não reais, virtuais e mediadas. Questionar este espectáculo apenas por via da presença real e física (material) dos actores seria não o ter compreendido ou, aliás, ter escapado à compreensão dessa “urgência contemporânea do dispositivo on-line”.

De que forma tornamos profícuo este novo modo de relação à distância, via internet – o único possível e o único desejável em tempos de pandemia – que tanto se praticou durante a quarentena, que transformou a nossa rede de relações numa desmultiplicação de rostos planos em ecrãs variados? De que vive um novo Teatro cujos actores/ personagens não estão presentes num mesmo espaço, mas partilham o mesmo presente, o mesmo momento, único, que cumpre essa efemeridade própria do que é Teatro? Como pensar uma tragédia clássica, como trabalhar um dramaturgo, como experimentar novas relações dramáticas? O Corpo de Helena ensaia a resposta a estas questões, que não são de agora, mas que o “agora” desafiou o colectivo a responder.

Na plataforma Zoom, transmitido em directo via Facebook, no “palco virtual”, (mais uma vez, designação dos próprios e, por isto, continuamos no âmbito do Teatro), assistimos à tragédia de Menelau, interpretado por Albano Jerónimo, protagonista da trama. A relação desta e das restantes personagens acontece sempre a solo – a contracena existente não é visível – nunca se assiste à presença de dois ou mais corpos “em cena” (entenda-se, em ecrã).

Assim, essa relação dinâmica entre personagens é aquela sugerida pela trama, que o espectador fixa e desenha na sua mente, ao longo da progressão da narrativa. Deste modo, cada personagem (Ulisses, Agamémnon, Coro, Menelau) tem a sua própria janela, cada um aparece à vez, no ecrã. Uma vez que os actores falam directamente para o dispositivo que os filma, a sensação que se tem é que o interlocutor do discurso dos protagonistas é o espectador (que está ligado à rede, a assistir à tragédia no conforto de casa).

Pratica-se uma certa sensação de intimidade e de voyeurismo, a ficção deixa a audiência ver nos olhos a mágoa do herói apaixonado por Helena, o desprezo e destrato de Ulisses, as averiguações do Coro, os conselhos de Agamémnon… Esta é uma das melhores características da experiência: receber, olhos nos olhos, as palavras do actor, receber de modo directo e aproximado –– embora mediado – o  brilho do olhar, as subtilezas das expressões faciais, o mover dançado dos lábios que outros formatos não tornam tão evidentes e passíveis de serem apreciados (esta afirmação virará o leitor para o cinema, mas ainda assim não é o mesmo: sabemos que o actor não nos vê, mas sabemos que é connosco que o actor está, para o seu público, naquele momento concreto, olhando para o ecrã exactamente na mesma partilha de tempo, tendo-nos como destinatário directo e imediato).

O Corpo de Helena permite mergulhar num novo mundo, como se a rede permitisse o acesso ao Mundo Antigo, um mundo paralelo onde contemporaneidade concede o encontro com o Mundo Clássico. A experiência é quase beckettiana, o lugar é um não lugar, o corpo é esse corpo estranho, e a proposta é nela própria uma implosão da ideia de Teatro.

Para além do virtuosismo da interpretação de Albano Jerónimo, destaca-se o trabalho de Luís Puto não só pela consistência e vigor com que pratica o carácter de Ulisses, mas também pela estranheza da imagem e ambiente criados para esta personagem, que lhe conferem uma alteridade estranha, mas útil ao texto de Paulo José Miranda. As interpretações de António Durães, Emília Silvestre e Marta Bernardes acompanham a qualidade da direcção de Cláudia Lucas Chéu que, juntamente com a direcção de produção de Francisco Leone, orquestrou de modo preciso, certeiro e eficaz a rede de actores.

A dramaturgia concebida é forte e original, sustentada pelos trabalhos estudados, precisos, minuciosos e muito eficazes de Tiago Pinhal Costa, na cenografia, e Teresa Antunes, no desenho de luz. De notar a inteligência da experimentação e manipulação de ambientes, luminosos e sonoros, pelos próprios actores, e as diferentes formas de apresentação e representação das personagens em relação com a câmara.

Aliás, o que se vê para além do rosto, tão perto, dos actores, é o que permite o espectador a deixar-se imbuir pela tensão dramática, cujo final não conseguiu resolver de modo tão engenhoso: o calcanhar de Aquiles desta encenação é precisamente o fim do espectáculo, que se esvai, sem se anunciar, dando a sensação de suspensão mais do que finalização da trama. É demasiado abrupta a finalização da intriga criada, sem preparação, sem código, quase violenta pela sua imprevisão.

“Quimera” é a designação atribuída a um monstro místico, cujo corpo é uma composição híbrida derivada da reunião de diferentes partes de diferentes animais, um animal bizarro a que a mitologia clássica deu vida e existência. “Quimera” pode significar também aquilo que é obra da imaginação, aludindo a qualquer composição fantástica, absurda ou monstruosa, significando também utopia. Será O Corpo de Helena a concretização da distopia que se adivinha?

Por derivação de sentido, “quimera” significa também “sonho”. Importa dizer que o Teatro Nacional 21 criou, com este espectáculo, um fundo de apoio à criação destinado aos jovens artistas, para que lhes seja possível sonhar com  (algum) futuro, por enquanto hipotecado pela conjetura da pandemia.

*Worstward Ho, Samuel Beckett

O Corpo de Helena. Texto: Paulo José Miranda. Direcção: Cláudia Lucas Chéu. Intérpretes: Albano Jerónimo, António Durães, Emília Silvestre, Luís Puto, Marta Bernardes. Espaço Cénico e Figurinos: Tiago Pinhal Costa. Desenho de Luz: Teresa Antunes. Direcção de Produção: Francisco Leone. Produção Executiva: Luís Puto. Comunicação: Sara Cavaco. Apoios: GMS Store; Gerador; Carlos Leal.

27 de Junho de 2020, em cena em directo no Facebook @TEATRONACIONAL21

(Este texto está também publicado em www.ocalcanhardeaquiles.wordpress.com )

Categorias: Teatro

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